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No Dia do Agricultor, um olhar para quem cultiva muito mais do que alimentos

Por Adelar Dias Junior | Jornalista MTB 2593/ES

Ilustração da Revista Pauta Solta sobre o Dia do Agricultor. Em primeiro plano, uma mesa rústica com uma xícara de café, pão francês, morangos frescos e uma bebida de morango. Ao fundo, uma estrada rural cercada por árvores nas Montanhas Capixabas e uma plantação de morangos, representando a agricultura familiar, a colheita do café, o turismo de experiência e a importância do agricultor para a economia regional. No canto superior esquerdo está o título do artigo e, na parte inferior, o endereço www.pautasolta.com.
Entre quem paga para colher morangos e quem acorda antes do sol para colher café, existe um personagem que quase sempre passa despercebido: o agricultor. ☕🍓🌱

Imagem produzida com Inteligência Artificial a partir de fotografias autorais de Adelar Dias Junior, especialmente para a Revista Pauta Solta.

Entre a colheita do morango, o auge da colheita do café e o movimento que toma conta das propriedades rurais, as Montanhas Capixabas vivem um dos períodos mais importantes do ano para a agricultura familiar, o turismo rural e a economia do Espírito Santo.

Todo dia 28 de julho o agricultor ganha parabéns nas redes sociais. Recebe homenagens, mensagens bonitas e fotos de lavouras ao pôr do sol. Mas fica uma pergunta que merece ser feita: será que ele está mesmo sendo homenageado ou apenas lembrado por um dia?

Existe uma diferença enorme entre as duas coisas.

Curiosamente, o Dia do Agricultor nem nasceu exatamente para homenagear o agricultor. A data foi instituída em 1960, durante o governo de Juscelino Kubitschek, para marcar o centenário da criação do então Ministério da Agricultura. A comemoração começou mais ligada à estrutura pública do setor do que propriamente ao homem e à mulher do campo.

É aquele velho ditado: às vezes a festa é tão bonita que a gente esquece de agradecer a quem carregou as cadeiras.

E talvez nunca tenha existido um momento melhor para fazer isso do que agora.

Enquanto a maioria das pessoas segue a rotina da cidade, as Montanhas Capixabas vivem um dos períodos mais intensos do calendário rural. De um lado, propriedades recebem visitantes interessados em colher morangos. Descobrimos uma coisa curiosa: tem gente pagando para trabalhar. Caminham entre os canteiros, enchem a cestinha, fazem fotografias, publicam nas redes sociais e voltam para casa felizes por terem “trabalhado” algumas horas na roça.

Já do outro lado da cerca, famílias inteiras acordam antes do sol para colher café. Não estão ali pela experiência. Estão porque a lavoura não espera, o banco não espera e boa parte da renda do ano depende justamente daqueles dias de colheita.

É o mesmo campo.

Só muda o motivo de acordar cedo.

🌱 Muito além da produção

Quem mora nas Montanhas Capixabas sabe que a agricultura não ocupa apenas espaço nas propriedades rurais.

Ela ocupa espaço na vida da região.

É ela que desenha a paisagem, movimenta a economia, preserva tradições, sustenta pequenos negócios e mantém vivas histórias que passam de geração para geração.

Boa parte dessa realidade tem um sobrenome: agricultura familiar, que, segundo o Incaper, reúne cerca de 73% dos cafeicultores capixabas.

Olha só a força que ela tem:

São aproximadamente 131 mil famílias ligadas à atividade, distribuídas em cerca de 60 mil propriedades rurais. Sozinha, a cafeicultura responde por aproximadamente 37% do PIB agrícola do Espírito Santo.

Mas talvez esses números expliquem menos do que uma cena bastante comum por aqui.

Na época da colheita, a cozinha vira escritório. O terreiro vira fábrica. A caminhonete vira caminhão. O vizinho vira parceiro. E a família inteira vira empresa. O relógio da casa passa a obedecer ao relógio da lavoura.

É a agricultura familiar funcionando exatamente como o nome diz.

🍓 O campo também virou destino

Durante muito tempo, quem vinha às Montanhas Capixabas procurava o frio, a gastronomia e as belas paisagens.

Hoje, muita gente quer levar um pouco de terra nos sapatos.

A temporada do morango mostra bem essa mudança. Diversas propriedades abriram suas porteiras para que turistas participem da colheita e levem para casa frutas recém-colhidas. O tradicional “colha e pague” transformou um trabalho que sempre fez parte da rotina rural em passeio.

E isso é bom para todo mundo.

A visita raramente termina no canteiro. Ela continua no café colonial, nos produtos artesanais, na conversa com quem produz e naquela história que dificilmente caberia em uma embalagem de supermercado. No fim das contas, o turista não leva apenas morangos.

Leva uma lembrança.

E, muitas vezes, um respeito maior por quem vive da terra.

Mas enquanto o morango encanta quem visita, outra colheita acontece quase ao mesmo tempo e movimenta muito mais do que o turismo de experiência.

☕ É tempo de café

Se o morango aproxima o turista do campo, é o café que mantém o campo de pé.

Entre maio e setembro, as Montanhas Capixabas mudam de relógio.

Quem acorda cedo percebe. O silêncio das montanhas dá lugar ao barulho dos tratores. Os terreiros mudam de cor. Caminhonetes entram e saem das propriedades. Lonas aparecem estendidas. O café ocupa quintais, varandas, galpões e boa parte das conversas.

Parece que todo mundo conhece alguém que está na colheita.

E não é que conhece mesmo.

O Espírito Santo é hoje o segundo maior produtor de café do Brasil, líder nacional na produção de café conilon e referência em cafés arábicas de montanha. São cerca de 60 mil propriedades ligadas à atividade e aproximadamente 400 mil empregos diretos e indiretos.

Traduzindo esses números para a linguagem da vendinha da esquina: quando começa a colheita, quase sempre tem um parente, um vizinho ou um amigo vivendo esse ritmo.

E não é só o agricultor.

O mecânico vende mais, o posto abastece mais, a cooperativa recebe mais, a loja agropecuária vende mais, o restaurante serve mais almoço e até quem nunca colocou um pé na lavoura acaba trabalhando por causa dela.

O café nasce no campo.

Mas a colheita acontece na cidade também.

🚜 Nem tudo tem cheiro de café fresco

Quem passa por um terreiro cheio de café secando ao sol costuma dizer:

— Agora é só vender.

Quem trabalha na lavoura normalmente responde apenas com um sorriso, porque sabe que ainda falta uma boa caminhada.

Primeiro, é preciso encontrar quem ajude a colher.

E aí aparece uma daquelas ironias que a vida gosta de escrever.

Enquanto alguns turistas pagam para colher morangos durante um fim de semana, muitos produtores não conseguem encontrar quem queira colher café durante a safra.

É o mesmo campo.

Mas visto de lados bem diferentes da cerca.

Nas montanhas, onde as máquinas nem sempre conseguem subir, continua valendo a força do braço.

E braço anda mais difícil de encontrar do que chuva em julho.

Aliás… quando a chuva resolve aparecer em julho, normalmente chega sem ser convidada. Quem planta aprende cedo que previsão do tempo não é promessa. É só previsão. Se chove demais, atrasa a colheita. Se demora para secar, perde qualidade. Se perde qualidade, perde dinheiro.

Como diz o pessoal da roça, “o prejuízo não manda aviso antes de entrar na porteira.”

Quando finalmente o café deixa o pé, muita gente imagina que o serviço acabou.

Acabou nada.

Só mudou de endereço.

Agora o café precisa secar, descansar, ser beneficiado, classificado, armazenado e seguir estrada. E estrada, todo mundo sabe, nem sempre ajuda. Às vezes, alguns quilômetros de barro conseguem atrasar um café que vai atravessar oceanos.

É curioso pensar que o café capixaba disputa espaço nas melhores cafeterias do mundo, mas sua primeira disputa, muitas vezes, ainda é contra a estrada da própria comunidade.

❤️ Muito além da xícara

Existe uma cena que acontece todos os dias.

Alguém aperta o botão da cafeteira. Outro coloca açúcar. Tem quem prefira sem açúcar. Tem quem reclame que o café ficou caro.

Tudo isso leva menos de cinco minutos.

Só que para aquele café chegar até ali, alguém passou praticamente um ano inteiro trabalhando.

Talvez seja por isso que o Dia do Agricultor provoque uma reflexão.

Enquanto as homenagens circulam pelas redes sociais, o agricultor faz exatamente o que fazia ontem. E provavelmente fará amanhã. Porque a lavoura nunca consultou o calendário para saber se hoje era dia de festa.

Talvez a maior homenagem não esteja na mensagem pronta enviada pelo WhatsApp.

Esteja em lembrar do agricultor não apenas no dia 28 de julho, mas todas as manhãs, quando a primeira xícara de café chega à mesa.

Porque, no fim das contas, a gente costuma agradecer ao café por acordar o dia.

Mas quase nunca lembra de agradecer a quem acordou muito antes dele.


📌 Pauta Solta | Para pensar

O agricultor não precisa ser lembrado apenas no dia dedicado a ele. Basta lembrar que, antes do café acordar a cidade, alguém acordou muito mais cedo para que ele existisse.


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✍️ Sobre o autor

Adelar Dias Junior é jornalista (MTB/DRT 2593/ES), fundador e editor da Revista Digital Pauta Solta. Escreve sobre comportamento, economia, política, empreendedorismo e os acontecimentos que movimentam as Montanhas Capixabas, sempre com uma linguagem próxima da conversa e um olhar voltado para o que normalmente passa despercebido.

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