Falta gente para trabalhar. Ou falta trabalho do jeito que as pessoas procuram?
Por Adelar Dias Junior | Jornalista – MTB 2593/ES

📷 Foto: Adelar Dias Junior / Revista Pauta Solta
🎨 Arte: Revista Pauta Solta
📌 A crise da mão de obra no Brasil talvez não seja falta de gente. Talvez seja falta de sintonia entre empresas e trabalhadores.
Tem frase que, de tanto ser repetida, acaba ganhando cara de verdade.
“Ninguém quer trabalhar.”
Pronto. A conversa parece encerrada antes mesmo de começar.
Só que basta atravessar a rua para a história mudar. De um lado, tem gente distribuindo currículo. Do outro, empresário dizendo que a vaga continua aberta porque ninguém fica.
Se os dois existem ao mesmo tempo, alguém está enxergando só metade do problema.
Foi justamente essa conversa que tomou conta do Café com Empresários, realizado em Marechal Floriano (ES). Durante as palestras da psicóloga organizacional Jovaneide Polon e dos especialistas Jaqueline Hand e Guilherme Helmer, uma ideia ficou rondando a mesa: talvez a crise da mão de obra não seja falta de trabalhador.
Talvez seja falta de sintonia. Ou, como o brasileiro costuma resumir as coisas, o santo simplesmente não bateu.
👔 O retrato não combina com a fotografia
No papel está tudo lindo. Mas na rua… a conversa muda.
Os números do Novo Caged, do Ministério do Trabalho e Emprego, mostram que o mercado de trabalho brasileiro continua criando empregos formais. O Espírito Santo acompanha esse movimento. Mesmo assim, empresário continua dizendo que falta gente, enquanto muita gente continua procurando emprego.
Cá pra nós… essa conta está fechando onde?
É muito cômodo resolver tudo dizendo que “ninguém quer trabalhar”. Frase pronta é igual receita de internet: serve para quase tudo e resolve quase nada.
Tem gente reclamando que falta oportunidade. Tem gente dizendo que o salário mal paga o combustível. Tem quem escute em toda entrevista a mesma resposta: “Precisamos de alguém com experiência.”
Aí aparece aquela pergunta que vive sem resposta: como alguém ganha experiência se ninguém oferece a primeira oportunidade?
Também tem quem passe dos cinquenta anos e descubra que a experiência, em vez de abrir portas, virou desculpa para mantê-las fechadas. Disso, confesso, posso falar de cadeira.
No fim das contas, ninguém parece estar mentindo. O empresário não inventou a dificuldade para contratar. Quem procura emprego também não inventou as dificuldades que encontra.
Então onde está o nó?
Talvez esteja bem no meio do caminho.
Hoje não basta pagar salário. Também não basta querer trabalhar. Entraram na conversa respeito, ambiente, oportunidade de crescer, qualidade de vida, tempo perdido no trânsito e até uma pergunta que, há poucos anos, quase ninguém fazia:
“Vale a pena ficar aqui?”
🔄 A conversa mudou
Durante muito tempo, o desafio era contratar. Hoje, o desafio é fazer a pessoa ficar.
A vaga aparece, o candidato aparece, a contratação acontece. Quando finalmente aprende onde fica o café, quem resolve cada pepino e como a empresa funciona…
…pede as contas.
A cadeira mal esfria e o RH já está anunciando a vaga outra vez.
Quem tem empresa conhece esse filme. Não é só contratar de novo. É recomeçar treinamento, perder ritmo, reorganizar a equipe e torcer para que a próxima tentativa dure mais do que a anterior.
🧓 Receita antiga para problema novo
Talvez essa seja a parte mais silenciosa dessa história.
Tem empresa tentando contratar como fazia quinze anos atrás. Tem trabalhador procurando emprego imaginando um mercado que também já ficou para trás.
Enquanto isso, um fala em comprometimento. O outro escuta exploração. Um fala em flexibilidade. O outro entende hora extra.
No fim, todo mundo acha que falou português, mas a conversa parece mais uma Torre de Babel.
🌄 E as Montanhas Capixabas?
É aqui que a conversa deixa de ser nacional e passa a ser a realidade das Montanhas Capixabas, em municípios como Marechal Floriano, Domingos Martins e Venda Nova do Imigrante.
O comércio enfrenta o mesmo problema da hotelaria? A agricultura vive a mesma realidade da construção civil? Os pequenos negócios conseguem disputar profissionais com empresas maiores?
Ou será que estamos chamando de “falta de mão de obra” problemas completamente diferentes?
Talvez responder essas perguntas seja mais útil do que continuar procurando um culpado.
☕ O que ficou da conversa
Essa edição do Café com Empresários passou, mas o assunto, não.
Talvez esse tenha sido o maior mérito do encontro.
Frase pronta resolve discussão de rede social. Problema de verdade costuma dar um pouco mais de trabalho.
Quando uma empresa deixa de crescer porque não consegue formar equipe, todo mundo perde. Quando alguém desiste de procurar emprego porque cansou de ouvir “não”, todo mundo perde também.
No fim das contas, talvez a crise silenciosa da mão de obra não seja falta de trabalhadores.
Talvez seja falta de sintonia.
💭 Pauta Solta | Para pensar
Talvez o Brasil não esteja vivendo uma crise de mão de obra.
Talvez esteja vivendo uma crise de conversa.
Porque quando quem oferece trabalho e quem procura oportunidade deixam de falar a mesma língua, sobra vaga de um lado, sobra currículo do outro… e todo mundo acha que o problema é do vizinho.
📚 Leia também
- Mercado de trabalho para quem passou dos 60 anos: experiência virou problema?
- Café com Empresários reúne empresários para discutir os desafios da mão de obra em Marechal Floriano.
✍️ Sobre o autor
Adelar Dias Junior é jornalista (MTB/DRT 2593/ES), fundador e editor da Revista Pauta Solta. Escreve sobre comportamento, economia, política e cotidiano, sempre buscando transformar assuntos complexos em conversas que qualquer pessoa teria em uma mesa de café.

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