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🚂 Trem das Montanhas Capixabas: mais que um passeio, uma chance de colocar a região nos trilhos

Por Adelar Dias Junior – Jornalista (MTB: 2593/ES)

Estação ferroviária histórica de Marechal Floriano, nas Montanhas Capixabas, ao lado dos antigos trilhos e vagões da Ferrovia Leopoldina, ilustrando o debate sobre o futuro do Trem das Montanhas Capixabas.
🚂 O apito ainda não voltou. Mas a conversa já começou. Será que desta vez o Trem das Montanhas Capixabas sai mesmo da estação?

📸 Imagem: Adelar Dias Junior / Revista Pauta Solta (fotografias) | Arte: Revista Pauta Solta

🚂 Tem trem que anda nos trilhos. E tem trem que vive apitando na nossa memória. Mas será que, desta vez, ele sai mesmo da estação?

Quem mora nas Montanhas Capixabas conhece essa conversa de cor. Basta alguém falar no Trem das Montanhas Capixabas que logo aparece um dizendo: “Agora vai!”. Outro lembra da última promessa. E sempre tem aquele mais desconfiado que arremata: “Vou acreditar quando ouvir o apito.”

Pois bem… desta vez a conversa ganhou um ingrediente novo. Mas, antes de abrir a champanhe, talvez seja melhor colocar o café para passar.

Porque o assunto andou. A possibilidade de a antiga Ferrovia Leopoldina passar para a administração do Governo do Espírito Santo reacendeu uma esperança que nunca saiu completamente dos trilhos da nossa memória. É um passo importante? Sem dúvida. Resolve o problema? Ainda não. E é justamente aí que a conversa começa a ficar interessante.

Porque, vamos combinar uma coisa?

Este artigo não é sobre um trem.

É sobre descobrir que, às vezes, a locomotiva menos importante é justamente a que anda sobre os trilhos.

🚂 Então… esse trem vai carregar o quê?

Se a gente resumir esse projeto a um passeio bonito pelas montanhas, já começamos perdendo a viagem.

Pensa comigo.

Se esse trem realmente sair da estação, quem embarca junto não é só o turista. Embarcam a pousada que recebe mais hóspedes, a padaria que vende mais cafés, o restaurante que volta a encher na hora do almoço, a cervejaria artesanal que conquista novos clientes, o produtor rural que encontra novos mercados e até o artesão que troca o velho “que bonito” pelo muito mais animador “quanto custa?”.

É por isso que o Trem das Montanhas Capixabas pode representar muito mais do que uma atração turística. Ele tem potencial para ligar cidades, fortalecer pequenos negócios, ampliar o tempo de permanência dos visitantes e dar ainda mais visibilidade às Montanhas Capixabas.

E convenhamos… turismo bom é aquele que rende movimento o ano inteiro.

Porque fotografia bonita não paga boleto.

Turismo bom é aquele que faz o caixa sorrir na segunda-feira.

🚂 Até aqui, todo mundo embarca. Agora a conversa muda de trilho.

Até aqui, acho difícil encontrar alguém contra o projeto.

Afinal, quem não gostaria de ver o Trem das Montanhas Capixabas voltando a cruzar nossa região?

Só que sonho bom também precisa acordar cedo.

Porque a pergunta deixa de ser “o trem vai voltar?” e passa a ser outra:

Como fazer para ele nunca mais parar?

É nessa estação que a conversa realmente começa.

Não basta colocar a locomotiva para rodar. É preciso manter os trilhos em ordem, conservar estações, investir em segurança, divulgar o destino, formar equipes, atrair passageiros e criar um modelo capaz de continuar funcionando quando as manchetes já estiverem falando de outro assunto.

É aí que mora o verdadeiro desafio.

E, curiosamente, é também a parte que costuma aparecer menos nas reportagens.

💰 O trem não pode viver de apito. Precisa viver de passagem.

Até aqui acho que já concordamos em uma coisa: fazer o trem voltar é apenas metade da viagem.

A outra metade começa quando a novidade passa.

É justamente nessa hora que muitos projetos descobrem que discurso não paga manutenção e fotografia de inauguração não substitui planejamento.

O Trem das Montanhas Capixabas precisa nascer com um modelo que sobreviva às eleições, envolva empresários, entidades, municípios e a própria comunidade. Porque desenvolvimento regional não acontece por decreto. Acontece quando muita gente resolve puxar o mesmo vagão.

E tem um detalhe que vale ouro.

O visitante não sobe a serra procurando uma cópia da cidade de onde saiu. Ele vem justamente pelo que nos torna diferentes: o café passado na hora, a conversa sem pressa, a gastronomia, a cultura, a hospitalidade e o jeito simples de viver. Se um dia o trem voltar, que seja para valorizar tudo isso, e não para transformar as Montanhas Capixabas em um lugar igual a qualquer outro.

Desenvolvimento de verdade não troca identidade por modernidade.

Faz as duas viajarem no mesmo vagão.

🚉 Só o trem não resolve a viagem.

Também seria ingenuidade imaginar que basta colocar uma locomotiva nos trilhos e esperar que a economia floresça automaticamente.

O trem pode ser o grande convite.

Mas a experiência completa depende de muito mais.

Depende de municípios trabalhando juntos, de um calendário de eventos integrado, de boa sinalização, de atendimento de qualidade, de comércio preparado, de atrações funcionando e de empresários dispostos a transformar oportunidade em negócio.

Hoje, o turista não procura apenas um lugar bonito.

Ele procura histórias para viver.

E nisso, convenhamos, as Montanhas Capixabas já largam na frente.

O que falta é transformar esse potencial em um projeto permanente.

🤝 E nós? Vamos só ficar esperando o trem passar?

Vamos ser honestos?

A gente reclama quando o projeto não sai, reclama quando aparece uma novidade e, se um dia realmente sair do papel, corre o risco de sentar na calçada esperando que ele resolva tudo sozinho. Parece até que turismo vem dentro do vagão, embrulhado para presente e com manual de instruções.

Não vem.

Se o Trem das Montanhas realmente voltar aos trilhos — e tomara que volte —, o sucesso dele dependerá de muito mais do que ferrovia e estação. Vai precisar do comerciante que atende bem, do empresário que acredita na oportunidade, do produtor que valoriza o que faz e, principalmente, de moradores que entendam que turismo não é espetáculo para assistir.

É projeto para participar.

Porque é fácil cobrar que o governo faça a parte dele.

Difícil é perguntar, olhando no espelho:

“E eu? Estou preparando a minha cidade para esse trem ou só estou esperando o apito?”

No fim das contas, o trem pode até trazer visitantes.

Mas, se eles decidirem voltar, dificilmente será por causa da locomotiva.

Será por causa de tudo o que encontrarem quando descerem dela.

🚂 No fim da linha… ou melhor, no começo dela.

Talvez o Trem das Montanhas volte.

Talvez ainda demore.

Isso o tempo vai responder.

Agora existe uma pergunta que depende apenas de nós.

Quando o primeiro turista descer naquela plataforma, vai encontrar apenas um trem?

Ou vai encontrar uma região inteira preparada para embarcar no próprio futuro?

A conversa continua nos comentários.

E, desta vez, ela não termina quando o apito soar.

Ela apenas começa.


💡 Pauta Solta dá a dica

Antes de discutir apenas quando o trem vai voltar, vale acompanhar três perguntas que definirão o sucesso do projeto:

  • O modelo de gestão garante continuidade, independentemente das mudanças de governo?
  • A operação terá sustentabilidade financeira ou dependerá permanentemente de recursos públicos?
  • Os municípios, os empresários e a comunidade estão preparados para transformar o Trem das Montanhas em uma experiência turística completa?

Talvez essas respostas sejam mais importantes do que a própria data da viagem inaugural.


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Fontes consultadas


Sobre o autor

Adelar Dias Junior é jornalista (MTB: 2593/ES), formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Tocantins e fundador da Revista Digital Pauta Solta. Atua com jornalismo de análise e comportamento, produzindo conteúdos que conectam informação, cotidiano e contexto social, com linguagem acessível, crítica e comprometida com o interesse público.

3 comentários sobre “🚂 Trem das Montanhas Capixabas: mais que um passeio, uma chance de colocar a região nos trilhos

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