🤖🇧🇷 IA brasileira vem aí: pode entrar, mas não espalha fofoca!
Por Adelar Dias Junior | Jornalista – MTB 2593/ES

Imagem: composição com fotografia original de Adelar Dias Junior e elementos visuais gerados com auxílio de inteligência artificial.
Brasil discute incentivo à inteligência artificial nacional enquanto cria regras para tornar a tecnologia mais segura, transparente e responsável
Toda família tem um.
É aquele parente que recebe uma informação às 8h02, tira uma conclusão às 8h03 e, às 8h04, já está avisando:
— Gente, fiquei sabendo de uma coisa…
Pronto.
O “fiquei sabendo” atravessa três grupos de WhatsApp, ganha dois detalhes que não existiam, encontra uma prima que “também ouviu falar” e, antes do almoço, aquilo já virou praticamente documento registrado em cartório.
Quando alguém pergunta a fonte, vem a resposta definitiva:
— Não sei direito. Mas onde há fumaça, há fogo.
Pois bem. A IA tupiniquim, ou melhor, a inteligência artificial no Brasil, está chegando naquele ponto em que os mais velhos diriam:
— Se não podemos com eles, vamos nos juntar a eles.
Quer dizer, agora incentivar a tecnologia é tão importante quanto impedir que ela se transforme nesse parente digital: rápido para responder, convincente para falar e, de vez em quando, completamente errado.
E o Brasil parece finalmente ter percebido que não basta colocar a IA na sala.
É preciso explicar as regras da casa.
🇧🇷 IA com CPF?
E já que a IA entrou na sala, parece que agora querem até tirar CPF para ela.
A Comissão de Ciência, Tecnologia e Inovação da Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei 1.074/2026, que cria a Política Nacional de Fomento à Inteligência Artificial Brasileira, batizada com uma sigla que parece ter sido feita sob medida para a conversa: Pontaria.
Pois é.
Logo Pontaria.
E, convenhamos, se existe uma área em que o Brasil não pode ficar atirando para todo lado, é justamente essa.
A proposta cria incentivos para empresas que desenvolvem sistemas de IA no país e estabelece critérios para que uma tecnologia possa receber a certificação de “IA Brasileira”.
Mas não basta colocar uma bandeirinha verde-amarela na tela e mandar tocar o hino.
Entre os critérios estão o uso de dados relacionados à nossa linguagem, cultura, história ou contexto nacional, infraestrutura de armazenamento e processamento mantida no Brasil e utilização de tecnologias e mão de obra nacionais.
Além disso, o texto aprovado prevê pelo menos 10% dos recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) para essas empresas, desconto tributário relacionado aos gastos de desenvolvimento e crédito fiscal para despesas realizadas no Brasil com pesquisa, treinamento, validação e testes de segurança.
Foi aí que a prosa diferenciou muito.
Até agora, a gente falava muito sobre como usar inteligência artificial criada lá fora. Agora começamos a conversar também sobre como produzir tecnologia aqui dentro.
E isso importa. E muito.
Porque quem desenvolve tecnologia não vende só programa de computador numa caixinha imaginária. Desenvolve conhecimento, forma profissionais, cria empresas, movimenta pesquisa, gera trabalho e reduz a dependência de quem está lá fora segurando a chave da porta.
Mas calma.
Antes que alguém mande no grupo da família, em caixa alta, “BRASIL JÁ TEM IA PRÓPRIA E VAI SUBSTITUIR O CHATGPT”, segure nosso parente pelo braço e explique devagarzinho: o projeto ainda está na estrada.
Uma coisa de cada vez.
Senão daqui a pouco aparece alguém perguntando onde baixa a IA brasileira.
🧪 Pode usar, mas assuma
Enquanto uma mão do Estado diz “vamos desenvolver”, a outra já aparece com aquele olhar de mãe quando o menino pega alguma coisa emprestada:
— Pode usar. Mas olha lá o que você vai fazer.
O CNPq — Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico publicou em 2026 regras de integridade científica para o uso de inteligência artificial generativa.
E aqui vale segurar nosso parente do WhatsApp mais uma vez antes que ele saia anunciando:
— Proibiram a IA na ciência!
Não proibiram.
A conversa é outra: usou, diga que usou.
Quem utiliza IA generativa em pesquisa deve informar a ferramenta, em qual etapa ela entrou e para qual finalidade. Também não pode pegar o que a máquina produziu, colocar o próprio nome embaixo e aparecer na fotografia sozinho.
Até porque, se der problema, aquela desculpa já pode ser guardada:
— Foi a IA que errou.
Não cola.
E essa mesma ideia de responsabilidade está andando pelos corredores do Congresso. O Projeto de Lei 2.338/2023, principal base do futuro marco regulatório brasileiro da inteligência artificial, foi aprovado pelo Senado e está em análise na Câmara.
A proposta trabalha com níveis de risco, numa linha semelhante à adotada pelo AI Act da União Europeia.
Falando sem juridiquês: uma IA que escolhe música para a sua playlist não pode ser tratada da mesma maneira que outra usada para avaliar alguém numa seleção de emprego, conceder crédito ou participar de decisões capazes de mexer com direitos das pessoas.
É como comparar o primo que erra o placar do futebol com aquele que entra no grupo da família dizendo:
— Não façam nada! Tenho informação segura!
O primeiro rende piada.
O segundo pode dar problema.
Então regular a inteligência artificial não significa necessariamente colocar a coitada de castigo no quarto. A discussão é muito mais sobre onde ela pode andar sozinha e onde precisa ter gente responsável olhando o que está fazendo.
E já que chegamos até aqui cobrando transparência de cientistas, empresas e governos, seria muito bonito encerrar o assunto e sair de fininho.
Só tem um probleminha.
Aqui também usamos.
A Revista Digital Pauta Solta utiliza inteligência artificial em etapas como pesquisa, organização de informações, exploração de abordagens, revisão, SEO e produção ou tratamento de elementos visuais.
Pronto.
Pode baixar o dedo.
Esconder isso num artigo sobre transparência seria mais ou menos como reclamar que o vizinho estacionou na calçada enquanto o nosso carro está atravessado em cima dela.
Só que usar a ferramenta não significa entregar a chave da casa.
No Pauta Solta, a pauta continua sendo definida editorialmente, os fatos são conferidos, as fontes precisam ser verificadas e a decisão sobre o que entra ou sai continua humana.
Inclusive neste artigo.
A IA ajudou no processo. Mas quem escolheu o assunto, definiu o caminho da conversa, conferiu as informações, cortou, acrescentou, discordou da máquina, mandou voltar e colocou o nome lá em cima fui eu.
Porque ferramenta ajuda e ajuda muito. Mas consciência ainda não vem no pacote de instalação.
📦 Box Pauta Solta — Antes de confiar na IA
Use a IA como ferramenta, não como aquele cunhado que “tem um amigo que sabe”.
Pergunte de onde veio a informação. Confira nomes, números e datas. Quando o assunto for importante, procure a fonte original ou o documento oficial. Afinal, uma resposta bonita, bem escrita e dita com toda a segurança do mundo ainda pode estar completamente errada.
Quando o uso da IA for importante para a transparência do conteúdo, diga que usou. E guarde uma regra que vale para jornalista, pesquisador, empresário, estudante e para o nosso parente do grupo da família: quem publica é responsável pelo que publica.
A IA pode pesquisar depressa, pode organizar melhor, pode enxergar relações que você ainda não percebeu e pode até falar com aquela segurança de quem nunca diz “não sei”.
Mas apertar “publicar” continua sendo uma decisão humana.
☕ O parente voltou
Lembra daquele nosso parente lá do começo?
Pois então.
Depois de espalhar a história pela família inteira, receber três “meu Deus!”, dois “eu sabia!” e provavelmente uma figurinha de Nossa Senhora, ele finalmente descobre que a informação não era bem daquele jeito.
Alguém pergunta:
— Ué, mas você não disse que tinha certeza?
Ele ajeita a cadeira, toma um gole de café, dá aquela olhadinha para o lado e responde:
— Eu só repassei o que me falaram.
Ah, bom. Então está resolvido. Ou melhor: não está.
Talvez toda essa prosa sobre inteligência artificial caiba justamente aí.
Durante muito tempo, a internet deixou a gente mal-acostumado com uma espécie de lavagem das mãos digital:
— Eu não disse. Só compartilhei.
Como se passar a história adiante diminuísse a responsabilidade.
Não diminui, Nem para gente, empresa, pesquisador, jornalista e também não diminui só porque agora colocamos uma máquina no meio da conversa.
Por isso, se o Brasil conseguir incentivar uma inteligência artificial nacional, investir em ciência, formar profissionais, proteger direitos e criar uma cultura de transparência e responsabilidade, talvez a tal Pontaria faça jus ao nome.
Porque inteligência, artificial ou não, ajuda bastante.
Só que antes de acertar a resposta, é bom aprender a mirar e, principalmente, conferir se o alvo era aquele mesmo.
💬 E você? O Brasil deve investir pesado no desenvolvimento de uma IA brasileira? E até onde devem ir as regras para garantir segurança sem sufocar a inovação?
Conte nos comentários. E não vale responder só “sou contra” ou “sou a favor” e sair correndo. Diga o porquê.
A inteligência artificial já entrou na nossa casa, no trabalho, na escola, na ciência e no celular.
Já sentou no sofá, daqui a pouco pede café.
Portanto, a conversa também é nossa.
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📚 Fontes oficiais
Câmara dos Deputados — tramitação e informações legislativas
https://www.camara.leg.br/
Senado Federal — Projeto de Lei 2.338/2023
https://www25.senado.leg.br/web/atividade/materias/-/materia/157233
CNPq — Política e diretrizes de integridade na atividade científica
https://www.gov.br/cnpq/pt-br/composicao/comissao-de-integridade/diretrizes
Comissão Europeia — AI Act e abordagem baseada em riscos
https://digital-strategy.ec.europa.eu/en/policies/regulatory-framework-ai
✍️ Sobre o autor
Adelar Dias Junior é jornalista (MTB: 2593/ES), formado em jornalismo pela Universidade Federal do Tocantins, é fundador da Revista Digital Pauta Solta, com atuação voltada ao jornalismo de análise e comportamento, produzindo conteúdos que conectam informação, cotidiano e contexto social, com linguagem acessível e abordagem crítica.
