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📱🗳️ Propaganda eleitoral liberada: antes de compartilhar, calibre o filtro


Por Adelar Dias Junior | Jornalista – MTB 2593/ES

Adelar Dias Junior observa o celular com expressão de dúvida em imagem sobre propaganda eleitoral 2026, inteligência artificial, desinformação e compartilhamento de conteúdos.
📱 Entre a informação e o compartilhamento existe um filtro que nenhuma tecnologia substitui: o nosso. Foto: arquivo pessoal de Adelar Dias Junior | Arte: Revista Pauta Solta com auxílio de IA.


A campanha começou. A IA entrou em campo, o WhatsApp virou arquibancada e, antes de acreditar em tudo que aparecer na tela, talvez seja bom conferir se o nosso filtro ainda está funcionando.

Você liga a televisão, ajeita a almofada, pega o café e espera a novela.

Daqui a pouco entra o galã.

Só que não.

Antes dele aparece um político olhando para você, sorrindo, dizendo que conhece seus problemas e prometendo resolver boa parte deles.

Você muda de canal. Mas a cena não muda, é a mesma em todos os canais.

Pois é. A propaganda eleitoral de 2026 está oficialmente liberada.

E essa talvez seja justamente a parte mais fácil de perceber da campanha.

Porque o político que apareceu antes da novela está identificado. Você sabe que aquilo é propaganda. Sabe que existe alguém tentando conquistar seu voto.

O problema começa quando a propaganda chega sem cara de propaganda.

No vídeo enviado pelo cunhado, No áudio do grupo da família, Na montagem que chegou acompanhada de um indignado “olha isso!”. E até naquele recorte de quinze segundos que parece explicar o Brasil inteiro.

E aí está uma das grandes armadilhas desta eleição: enquanto achamos que estamos apenas nos informando, podemos estar ajudando a distribuir uma campanha que nem percebemos que entrou pela porta.

Sem salário, sem contrato, sem crachá, mas com uma eficiência que muito profissional gostaria de ter.

📺 Ponta do iceberg

Quando pensamos em propaganda eleitoral, ainda aparece aquela imagem conhecida: candidato na televisão, musiquinha grudenta, número na tela e alguém prometendo melhorar alguma coisa.

Só que a televisão é apenas a parte visível.

A eleição de 2026 também mora no bolso.

A propaganda eleitoral está permitida desde 16 de agosto e pode circular na internet, dentro das regras da Justiça Eleitoral, por sites, redes sociais e aplicativos de mensagens.

E aí entram os grupos da família, da empresa, da igreja, do futebol, dos amigos, do bairro.

Até aparecer aquela mensagem clássica:

“Não sei se é verdade, mas estou repassando.”

Meu amigo, talvez essa seja justamente a hora de não repassar.

🫧 Bem informado?

Aqui entra uma armadilha ainda mais interessante.

Você recebe um vídeo que confirma exatamente aquilo que já pensava.

Depois chega outro e mais outro. Logo aparecem comentários, memes, recortes e áudios dizendo praticamente a mesma coisa.

A sensação é ótima.

“Rapaz, estou bem informado.”

Talvez.

Mas também pode ser que você esteja apenas muito bem acomodado dentro de uma bolha. É como olhar pela janela de casa e concluir que o mundo inteiro está com o mesmo tempo porque na sua rua está chovendo.

Nas redes, os algoritmos aprendem nossos gostos, nossas reações e até aquilo que nos irrita. Enquanto isso, nossos grupos pessoais fazem o resto: pessoas parecidas compartilham conteúdos parecidos, confirmando umas às outras.

Então acontece algo curioso.

Quanto mais recebemos mensagens que concordam conosco, mais parece que todo mundo está vendo a mesma realidade.

Só que não está.

Às vezes estamos apenas ouvindo nosso próprio pensamento voltar com outra voz.

🤖 A IA entrou

No artigo “IA nas eleições, deepfakes e fadiga digital”, publicado anteriormente pela Revista Pauta Solta, já conversávamos sobre o que poderia acontecer quando inteligência artificial, redes sociais, excesso de informação e eleições entrassem no mesmo liquidificador.

Pois ligaram o liquidificador.

A inteligência artificial consegue produzir imagens, textos, áudios e vídeos numa velocidade inimaginável poucas eleições atrás.

Isso não transforma a IA em vilã. Afinal, o problema continua sendo a mão humana — e, principalmente, o que ela decide fazer com a ferramenta.

Por isso, o TSE estabeleceu regras específicas. Conteúdos sintéticos multimídia produzidos ou manipulados com inteligência artificial usados na propaganda precisam ser identificados de forma explícita, destacada e acessível.

Além disso, existem restrições para conteúdos fabricados ou manipulados que divulguem fatos notoriamente falsos ou gravemente descontextualizados.

E há uma linha ainda mais clara: deepfakes em áudio ou vídeo para favorecer ou prejudicar candidaturas são proibidos, mesmo com autorização da pessoa retratada.

Tecnologia pode ajudar a comunicar. Isso é bem diferente de receber licença para fabricar realidade.

🍞 Chegou à padaria

Agora sai Brasília e entra Marechal Floriano.

Ou qualquer cidade onde exista uma padaria, um celular e duas pessoas dispostas a discutir política.

Porque o conteúdo não para na propaganda oficial, ele chega até nós.

Alguém recebe um vídeo, assiste quinze segundos, fica indignado e encaminha. Cinco minutos depois aparece alguém dizendo que aquilo é mentira.

Pronto.

Nasceu uma sessão extraordinária do Congresso Nacional dentro do grupo da família.

Só faltam a ata e o cafezinho.

E fazemos esse serviço gratuitamente com uma eficiência impressionante. Compartilhamos, defendemos, respondemos e buscamos outro vídeo para provar que o primeiro estava certo. E quanto mais fazemos isso, maior fica a sensação de que estamos “por dentro de tudo”.

Talvez estejamos.

Ou talvez apenas tenhamos decorado muito bem as paredes da nossa bolha.

📣 Virou arquibancada

Esse é um dos perigos quando a política assume comportamento de torcida.

Se a informação veio “do meu lado”, parece confiável. Se veio “do outro”, já chega condenada.

Então pessoas comuns, que amanhã continuarão encontrando o vizinho na rua, o colega no trabalho e o cunhado no almoço de domingo, acabam incorporadas às patrulhas digitais.

Às vezes sem perceber.

A postagem pode ser sobre preço do tomate, que alguém encontra política.

Pode ser sobre estrada. E lá vem mais alguém encontrando política.

Pode ser até a foto de um cachorro olhando pela janela. Daqui a pouco alguém pergunta em quem o cachorro vota.

E quando entramos nesse modo arquibancada, deixamos de analisar propostas, fatos e argumentos.

Começamos a proteger a camisa.

🏠 A conta chega

Discordar politicamente é uma coisa. Transformar divergência em hostilidade é outra.

A democracia pressupõe confronto de ideias. Porém, a convivência exige limites.

Quando o extremismo entra por uma porta, amizade, trabalho, relações comunitárias e até famílias podem sair por outra.

Talvez, então, uma pergunta importante nesta eleição não seja somente:

“Em quem você vai votar?”

Mas também:

“O que você está disposto a destruir para defender seu voto?”

Porque candidato passa, mandato termina, campanha acaba. Mas seu irmão continua sendo seu irmão, o colega estará novamente na mesa ao lado na segunda-feira e aquele amigo que você chamou de ignorante às 23h47 pode ser justamente quem vai ajudá-lo quando seu carro não pegar às sete da manhã.

Política importa.

Mas não precisa engolir todas as outras relações humanas.

🚨 Nem tudo vale

A Justiça Eleitoral reforçou as regras para 2026, inclusive diante do avanço da inteligência artificial e da circulação de desinformação.

Além disso, existem canais oficiais para denúncias e esclarecimentos. O Pardal Móvel recebe denúncias de propaganda eleitoral irregular.

Já o Sistema de Alertas de Desinformação Eleitoral (SIADE) recebe comunicações sobre situações relacionadas à desinformação e à integridade do processo eleitoral.

Para dúvidas, a página oficial Eleições 2026, do TSE, concentra informações, serviços e orientações ao eleitor.

Ou seja: antes de confiar no primo do amigo do rapaz que conhece alguém “lá dentro”, talvez seja melhor consultar quem organiza a eleição.

📌 BOX PAUTA SOLTA | Antes de compartilhar

Recebeu uma bomba eleitoral no celular?

Pare alguns segundos.

Veja quem publicou originalmente, confira a data e procure a informação completa, não apenas aquele corte perfeito para provocar indignação.

Além disso, pergunte uma coisa simples:

“Estou recebendo versões diferentes ou só coisas que confirmam aquilo que eu já penso?”

Desconfie de áudios e vídeos espetaculares demais. Observe a identificação quando houver uso de IA e procure confirmação em fontes confiáveis.

Principalmente: se a mensagem provocar aquela vontade incontrolável de compartilhar agora, desconfie duas vezes.

E guarde uma regra simples:

“Encaminhado muitas vezes” não significa “confirmado muitas vezes”.

Às vezes significa apenas que muita gente apertou o mesmo botão dentro da mesma bolha.

🧠 O filtro é nosso

Podemos atualizar leis, cobrar plataformas, desenvolver ferramentas de detecção e criar canais de denúncia. Tudo isso é importante. Entretanto, existe um equipamento que precisa funcionar antes de todos os outros:

nosso senso crítico.

A eleição de 2026 promete ser tecnológica, veloz e profundamente digital e justamente por isso, algumas atitudes antigas podem valer ainda mais.

Ouvir, conferir, pensar, discordar sem odiar, procurar também aquilo que contradiz nossas certezas e admitir uma possibilidade quase revolucionária nas redes sociais:

“Talvez eu esteja errado.”

Essa frase não ameaça democracia nenhuma.

Talvez seja justamente o pequeno furo capaz de deixar entrar um pouco de ar na nossa bolha.

💬 Agora a conversa é sua

Você já abriu um grupo achando que estava se informando e, depois, percebeu que praticamente todo mundo ali dizia a mesma coisa?

Já compartilhou alguma informação e descobriu depois que a história não era exatamente aquela?

E você acha que os grupos de família podem se transformar numa das principais arenas eleitorais de 2026?

Conte nos comentários.

A conversa está aberta, inclusive para quem discorda.

Só não precisa jogar copo no campo.


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📚 Fontes oficiais

Tribunal Superior Eleitoral — novas regras da propaganda eleitoral para 2026
https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2026/Julho/saiba-quando-comeca-a-propaganda-eleitoral-e-conheca-as-novas-regras-para-as-eleicoes-2026

Resolução TSE nº 23.610/2019 — propaganda eleitoral, atualizada para 2026
https://www.tse.jus.br/legislacao/compilada/res/2019/resolucao-no-23-610-de-18-de-dezembro-de-2019

Resolução TSE nº 23.755/2026
https://www.tse.jus.br/legislacao/compilada/res/2026/resolucao-no-23-755-de-2-de-marco-de-2026

Sistema de Alertas de Desinformação Eleitoral — SIADE
https://www.tse.jus.br/eleicoes/sistema-de-alertas

Eleições 2026 — Portal do TSE
https://www.tse.jus.br/eleicoes/eleicoes-2026

Sobre o autor

Adelar Dias Junior é jornalista (MTB: 2593/ES), formado em jornalismo pela Universidade Federal do Tocantins, é fundador da Revista Digital Pauta Solta, com atuação voltada ao jornalismo de análise e comportamento, produzindo conteúdos que conectam informação, cotidiano e contexto social, com linguagem acessível e abordagem crítica.

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