💧 No frio, a sede tira férias. A água não: hidratação depois dos 60
Por Adelar Dias Junior | Jornalista MTB 2593/ES

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Foto: Adelar Dias Junior | Arte: Revista Pauta Solta, produzida com auxílio de IA.
Nas Montanhas Capixabas, o inverno diminui a vontade de beber água. Depois dos 60, porém, esperar a sede chegar pode ser uma péssima estratégia para evitar a desidratação.
Fui fazer um exame de sangue e descobri uma coisa que não apareceu no pedido médico: eu precisava beber mais água.
Na hora da coleta, veio a dificuldade. Pouco líquido, veia menos colaborativa e aquele braço esticado enquanto a gente começa a negociar mentalmente com o próprio organismo: “Ajuda aí, companheiro, que eu prometo melhorar”.
Não vou transformar a coleta em diagnóstico — isso é conversa para profissional de saúde. Entretanto, o episódio acendeu uma luz. Eu vinha bebendo pouca água.
E aí mora uma armadilha danada para quem vive o inverno nas Montanhas Capixabas, especialmente para nós que já carregamos alguns verões a mais na certidão. No meu caso, já cheguei àquela fase da vida em que, fazendo as contas, provavelmente há mais verão no retrovisor do que no para-brisa.
Portanto, convém cuidar bem dos que ainda estão pela frente.
🥶 A sede sumiu
Em Marechal Floriano, ninguém precisa explicar muito o que significa uma manhã fria.
A sede do município fica a cerca de 560 metros de altitude, e a própria Prefeitura classifica nosso clima como tropical de altitude, com temperaturas que podem chegar a cerca de 8°C. É a terra que oficialmente já é chamada de “fria”.
Nesse cenário, água gelada às sete da manhã não disputa em igualdade de condições com café quente.
Perde de goleada.
A gente acorda, passa café, resolve uma coisa, atende telefone, sai, volta, trabalha, almoça, toma outro cafezinho e, quando percebe, o copo d’água ficou lá, praticamente como objeto de decoração.
Só que o organismo não entrou no inverno junto com a vontade de beber água.
A Secretaria de Estado da Saúde do Espírito Santo (Sesa) alerta justamente para isso: durante o inverno, a sensação de sede diminui, mas a necessidade de líquidos permanece. A hidratação ajuda no funcionamento dos órgãos, na circulação sanguínea e também evita o ressecamento das vias respiratórias. Para os idosos, a recomendação estadual é ainda mais direta: manter hidratação frequente mesmo sem sentir sede.
Ou seja: se depender apenas da sede, o trem pode não apitar.
👴 Depois dos 60
Aqui a conversa fica ainda mais importante.
O Ministério da Saúde explica que pessoas com mais de 60 anos apresentam redução no número e na sensibilidade dos receptores corporais relacionados à sede. Em português de mesa de cozinha: a campainha toca mais baixo, mas a casa continua precisando de água.
Por isso, pessoas idosas ficam mais suscetíveis à desidratação.
O próprio Ministério recomenda criar o hábito de beber água ao longo do dia, sem esperar que apareça aquela vontade que, quando éramos mais novos, parecia avisar com megafone.
Aliás, um guia oficial do Ministério da Saúde dedicado à atenção e reabilitação da pessoa idosa reforça que casos de desidratação são frequentes nessa população. Por isso, orienta oferecer água em pequenas quantidades, várias vezes ao dia e entre as refeições. Quando houver restrição de líquidos determinada por médico, evidentemente, a quantidade precisa seguir orientação individual.
Esse último detalhe importa muito.
Saúde não combina com receita de internet do tipo “todo mundo tem que beber exatamente tantos litros”. Cada organismo tem sua história, seus medicamentos e suas condições clínicas.
🚰 Dois litros?
A Biblioteca Virtual em Saúde do Ministério da Saúde, em orientação destinada à alimentação da pessoa idosa, apresenta como referência pelo menos dois litros — de seis a oito copos de água por dia, preferencialmente nos intervalos das refeições.
É uma referência geral, não uma prescrição individual.
Quem possui doença renal, cardíaca ou qualquer condição que exija controle de líquidos deve seguir a quantidade estabelecida pelo profissional de saúde.
Ainda assim, para muita gente o problema nem chega à discussão dos dois litros.
É lembrar do primeiro copo.
⚠️ O corpo avisa
A falta de líquidos não se resume à sensação de boca seca.
Fontes oficiais do Ministério da Saúde relacionam a desidratação a sinais como redução da urina, tontura, fraqueza, mal-estar e alterações importantes do estado geral. Em pessoas idosas, mudanças rápidas de comportamento também merecem atenção, porque podem estar relacionadas, entre outras causas, à desidratação.
Além disso, a hidratação adequada participa de funções básicas do organismo. Portanto, não estamos falando de moda fitness, garrafinha bonita para fotografia ou desafio de rede social.
Estamos falando de manutenção.
Depois de certa quilometragem, qualquer motorista sabe: não adianta encerar o carro e esquecer de olhar os fluidos.
E antes que alguém reclame da comparação, aviso que estou incluído no veículo.
🏔️ Aqui na serra
A questão ganha uma cara muito nossa.
Marechal Floriano tem manhã em que a gente sai procurando sol pela casa como gato. Tem dia em que o casaco fica perto da cadeira, o café reaparece várias vezes e a garrafa d’água passa despercebida.
Além disso, a Sesa lembra que o inverno capixaba combina temperaturas mais baixas e menor umidade do ar, condições que exigem atenção especial principalmente de crianças e idosos.
Portanto, talvez seja hora de colocar a água na mesma categoria dos óculos, do celular e da chave de casa: coisa que precisa ficar à vista.
Porque o velho “depois eu tomo” tem um problema conhecido.
O depois é um sujeito enrolado.
📦 BOX | A água precisa entrar na rotina
Não precisa transformar a cozinha em posto de abastecimento nem andar abraçado a um galão.
Comece colocando água onde os olhos encontram: na mesa de trabalho, perto da poltrona, na cozinha ou numa garrafa que acompanhe a rotina. Em vez de esperar a sede, associe alguns goles a momentos do dia: depois de acordar, no meio da manhã, entre as refeições e durante a tarde.
Água continua sendo a principal escolha. Entretanto, alimentos e preparações com líquidos também contribuem para a hidratação. A Sesa cita, por exemplo, sopas, caldos e outras opções adequadas ao período frio.
Observe ainda sinais como boca seca, tontura, fraqueza e redução importante da urina. Se houver confusão mental, desmaio, piora acentuada do estado geral ou outros sintomas relevantes, procure atendimento de saúde.
E, principalmente, se você recebeu orientação médica para restringir líquidos, não aumente o consumo por conta própria. Nesse caso, vale a regra mais segura de todas: a quantidade correta é a determinada pelo profissional que acompanha sua saúde.
☕ Café é prosa
Aqui talvez esteja a parte mais difícil deste artigo para quem mora nas montanhas.
Café é café.
Água é água.
Um não precisa declarar guerra ao outro.
Pode continuar passando aquele café que perfuma a cozinha inteira, chama vizinho e quase resolve problema de família. Apenas coloque alguns copos de água no meio dessa conversa.
Meu alerta veio numa coleta de sangue.
Ainda bem.
Porque às vezes o corpo não manda ofício, não publica edital e muito menos abre prazo para recurso. Ele dá um sinal pequeno e espera que a gente tenha juízo suficiente para prestar atenção.
Aos 60 e poucos, talvez sabedoria seja justamente isso: perceber que envelhecer bem não depende apenas das grandes decisões.
Às vezes começa num copo d’água esquecido em cima da mesa.
E você?
No inverno, também percebe que bebe menos água? Tem algum truque para lembrar? A garrafinha acompanha você ou vive esquecida num canto?
Conte nos comentários. Essa é daquelas conversas em que uma experiência simples pode lembrar outra pessoa de se cuidar.
Porque verão a mais na certidão não é motivo para reclamar.
É motivo para querer chegar bem ao próximo.
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📚 Fontes oficiais
Secretaria de Estado da Saúde do Espírito Santo — cuidados com a saúde no inverno de 2026
Ministério da Saúde — idosos precisam ter ainda mais atenção com a hidratação
Biblioteca Virtual em Saúde — alimentação da pessoa idosa
Ministério da Saúde — Guia de Atenção à Reabilitação da Pessoa Idosa
Prefeitura de Marechal Floriano — informações geográficas e climáticas do município
Sobre o autor
Adelar Dias Junior é jornalista (MTB: 2593/ES), formado em jornalismo pela Universidade Federal do Tocantins, é fundador da Revista Digital Pauta Solta, com atuação voltada ao jornalismo de análise e comportamento, produzindo conteúdos que conectam informação, cotidiano e contexto social, com linguagem acessível e abordagem crítica.
