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Mentoria de jovens: quando alguém acredita no potencial, o crescimento ganha velocidade

✍️ Por Jovaneide Polon | Psicóloga Organizacional, Consultora em Desenvolvimento Humano e colunista da Revista Pauta Solta

Jovaneide Polon em contexto de mentoria de jovens, orientando um jovem sobre desenvolvimento, escolhas profissionais e preparação para o mercado de trabalho.
Mentoria pode ajudar jovens a transformar potencial em escolhas, oportunidades e ação. Imagem: acervo pessoal de Jovaneide Polon, com composição gráfica gerada por IA para a Revista Pauta Solta.

Entre o estudante que você é hoje e o profissional que deseja se tornar existe um caminho. E ninguém precisa percorrê-lo sozinho.

Agosto traz duas datas que nos convidam a olhar com mais atenção para a juventude: 11 de agosto, Dia do Estudante, e 18 de agosto, Dia do Estagiário. Duas celebrações diferentes, mas que podem ser conectadas por uma mesma pergunta:

Como estamos preparando nossos jovens para transformar conhecimento em escolhas, oportunidades e autonomia?

Essa pergunta é especialmente importante em um momento em que os jovens convivem diariamente com uma quantidade enorme de estímulos.

Redes sociais, jogos eletrônicos, vídeos curtos, influenciadores, plataformas digitais e diferentes espaços virtuais disputam constantemente sua atenção. Em poucos segundos, eles podem passar de um conteúdo para outro, descobrir uma nova tendência, acompanhar a vida de alguém que admiram ou encontrar uma experiência que desperte prazer e curiosidade.

Enquanto isso, a escola continua propondo algo que exige uma competência cada vez mais desafiadora de desenvolver: atenção sustentada, disciplina, persistência e capacidade de lidar com aquilo que nem sempre é imediatamente prazeroso, mas é relevante para a trajetória estudantil.

O desafio é maior: como ajudar o jovem a desenvolver autonomia para fazer escolhas em um mundo que disputa permanentemente a sua atenção?

🧭 Onde entra a mentoria?

É aí que entra a mentoria, um processo que tem sido cada vez mais utilizado para acelerar carreiras, escolhas profissionais e transição para outros cargos dentro da organização.

O diferencial é exatamente criar um espaço de escuta, orientação, reflexão e ação, no qual uma pessoa mais experiente ajuda outra a ampliar sua visão sobre possibilidades, escolhas e caminhos.

Para jovens, esse processo pode ser ainda mais significativo. A adolescência e o início da vida adulta são períodos marcados por descobertas, inseguranças, comparações e muitas perguntas:

  • O que eu quero para o meu futuro?
  • No que eu sou bom?
  • Como posso melhorar?
  • Como posso aproveitar as oportunidades (menor aprendiz, estágios, entre outras)?
  • Como me preparar para o mercado de trabalho?
  • Como conciliar escola, trabalho, família, amizades e tantas outras demandas?

🚀 Da conversa para a ação

Um dos diferenciais de uma boa mentoria é transformar reflexão em movimento.

Por isso, além das conversas realizadas durante os encontros, é importante que o mentorado seja estimulado a experimentar, pesquisar, praticar e colocar em ação aquilo que foi discutido.

É o chamado homework: pequenas tarefas e desafios entre os encontros que ajudam a transformar conhecimento em experiência. Pode ser pesquisar uma profissão, organizar a rotina de estudos, preparar um currículo, conversar com alguém que trabalha em determinada área, desenvolver uma habilidade, participar de uma atividade, estabelecer uma meta ou simplesmente observar um comportamento que deseja mudar.

Porque existe uma diferença importante entre saber o que precisa ser feito e conseguir fazer.

A mentoria ajuda a construir essa ponte.

🤝 Mentoria em programas sociais

E quando falamos de jovens em programas sociais?

Em programas sociais de caráter educacional e formativo, especialmente aqueles voltados para jovens periféricos, a mentoria pode representar uma oportunidade concreta de ampliação de repertório, fortalecimento da autoestima, desenvolvimento de competências socioemocionais e aproximação com o mundo do trabalho.

O jovem pode ter acesso a atividades educacionais, culturais e artísticas, mas também precisa encontrar espaços para falar sobre suas dúvidas, reconhecer suas potencialidades, compreender seus desafios e visualizar possibilidades para o futuro.

Nesse contexto, o mentor voluntário não é um professor particular, um psicólogo (pode ser também), mas alguém que conhece a realidade do jovem e cuja experiência pode ser essencial para ajudá-lo a fazer escolhas importantes.

Seu papel é escutar, provocar reflexão, compartilhar experiências, estimular que o jovem faça perguntas e se abra para o processo.

É ajudar o jovem a enxergar possibilidades que talvez ainda não consiga visualizar sozinho.

E, principalmente, estimulá-lo a assumir o protagonismo da própria trajetória.

🎯 O mentor precisa estar preparado

Ser voluntário e ter boa vontade é importante. Mas, para uma mentoria social funcionar de verdade, não basta querer ajudar: precisa estar capacitado em competências básicas, entre elas, uma comunicação clara e objetiva.

O mentor precisa conhecer a instituição, compreender sua missão e seus valores e entender a realidade dos jovens atendidos. O que demanda uma atuação multidisciplinar, com foco em todos os atores envolvidos.

Também precisa receber uma preparação compatível com o contexto do programa, incluindo orientações sobre sua atuação, limites do papel de mentor, voluntariado e temas relacionados à diversidade, ao letramento racial e de gênero.

Isso é fundamental porque boas intenções não substituem preparo.

Quando trabalhamos com a diversidade cultural, precisamos estar dispostos a compreender histórias, contextos e oportunidades diferentes das nossas próprias experiências. Nesse sentido, o letramento racial e as questões relacionadas a gênero e inclusão são fundamentais para um processo de mentoria qualificado.

👨‍👩‍👧 E o papel da família?

A família também tem um papel importante. O jovem precisa compreender que a mentoria não é mais uma obrigação colocada sobre seus ombros, mas uma oportunidade de desenvolvimento.

Ao mesmo tempo, precisa de apoio para organizar sua agenda, conciliar escola, trabalho, atividades do programa e encontros com o mentor. Em muitos casos, o maior desafio não é falta de capacidade. É a falta de tempo, volume de atividades na agenda, organização, referência, incentivo ou alguém que ajude a transformar intenção em comportamento.

Por isso, envolver as famílias e explicar os objetivos da mentoria aumenta as possibilidades de que o processo seja realmente aproveitado.

🌉 Do estudante ao profissional

Talvez essa seja uma das maiores contribuições da mentoria.

Ela ajuda o jovem a perceber que a preparação para o mundo do trabalho começa muito antes do primeiro emprego.

  • Começa quando aprende a cumprir um compromisso com o programa.
  • Quando desenvolve responsabilidade sobre uma tarefa.
  • Quando aprende a receber um feedback sem interpretar toda crítica como rejeição.
  • Quando consegue organizar seu tempo entre tantas demandas.
  • Quando aprende a trabalhar em equipe nas atividades com outros alunos.
  • Quando descobre como se comunicar de acordo com cada situação.
  • Quando aprende a pedir ajuda.

Quando começa a reconhecer seus talentos e aquilo que ainda precisa desenvolver.

Essas competências não aparecem magicamente no primeiro dia de estágio ou emprego.

Elas são construídas ao longo do caminho.

E é justamente por isso que o Dia do Estudante e o Dia do Estagiário podem ser vistos como duas etapas de uma mesma jornada: aprender, experimentar e crescer.

🌱 Crescer leva tempo

Mentoria não elimina dificuldades. Não garante emprego. Não substitui escola, família, políticas públicas ou outras redes de proteção e desenvolvimento.

Mas pode acelerar processos que, sem orientação, talvez levassem muito mais tempo para acontecer.

Um jovem que aprende a organizar sua rotina hoje pode chegar mais preparado amanhã.

Aquele que desenvolve sua comunicação pode se posicionar melhor em uma entrevista, pode ganhar repertório que abre portas para novos projetos e iniciativas dentro da escola.

Quem aprende a receber feedback pode evoluir mais rapidamente. Quem desenvolve autoconhecimento pode fazer escolhas profissionais mais conscientes.

Quem encontra um adulto de referência pode começar a acreditar que também pode ocupar determinados espaços.

E talvez essa seja uma das maiores forças da mentoria: ajudar o jovem a enxergar possibilidades antes mesmo de ter certeza de que é capaz de alcançá-las.

💭 Que jovem estamos formando?

Neste mês de agosto, mais do que parabenizar estudantes e estagiários, talvez seja importante ampliar a conversa.

Precisamos perguntar:

“Que competências você precisa desenvolver para construir o futuro que deseja?”

“Quem está ajudando você nessa caminhada?”

“Que oportunidades estão sendo oferecidas para que você descubra seu potencial?”

E, principalmente:

“O que nós, adultos, escolas, empresas e instituições sociais, estamos fazendo para que os jovens tenham não apenas acesso às oportunidades, mas condições reais de aproveitá-las?”

A juventude precisa de referências, oportunidades, escuta, orientação e espaço para experimentar.

Acreditamos que potencial + oportunidade + orientação + ação podem acelerar uma trajetória.

É esse o propósito maior de uma mentoria de jovens: não escolher o caminho pelo jovem, mas ajudá-lo a desenvolver as ferramentas necessárias para escolher, construir e assumir o próprio caminho.

📚 Referências

  • Experiência da autora como mentora e coordenadora de mentoria de jovens periféricos no IOB – Instituto Oportunidade Brasil, há três anos.
  • RONSONI, Marcus; MARQUES, Cássia; BORGES, Pétula. Mentoring – Manual do Mentor Organizacional. Primavera Editorial, 2020.

✍️ Sobre a autora

Jovaneide Polon é psicóloga, consultora organizacional e especialista em desenvolvimento humano, gestão de pessoas e carreiras. Fundadora da Polon Consultoria Empresarial & Desenvolvimento Humano, atua com liderança, clima organizacional, recrutamento e seleção, desenvolvimento de equipes e saúde mental no ambiente de trabalho.

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