A eleição de 2026 já entrou na sua casa. Só ainda não pediu licença.
Por Adelar Dias Junior | Jornalista MTB2593/ES

Imagem produzida com Inteligência Artificial a partir de fotografia autoral de Adelar Dias Junior para a Revista Pauta Solta.
Convenções partidárias mostram que a campanha começa muito antes da propaganda eleitoral.
Ainda não é propaganda oficial, mas já está na sua televisão.
Quem ainda não percebeu?
As convenções partidárias estão acontecendo em todo o país e a tradicional “sopa de letrinhas” da política brasileira começa a ser trocada por nomes próprios, oficialmente colocados na disputa.
Detalhe: alguns desses nomes boa parte do eleitor talvez esteja ouvindo pela primeira vez. Outros parecem aquele primo distante que só aparece em casamento, velório… e em época de eleição.
O jogo já está rolando “dentro das quatro linhas”. Partidos homologam candidatos, fecham alianças e ocupam espaço no tabuleiro das eleições de 2026. Alguns chegam para disputar efetivamente o voto. Outros cumprem um papel estratégico, ampliando tempo de propaganda, fortalecendo chapas proporcionais ou simplesmente marcando posição para futuras negociações.
As fichas começam a ser colocadas sobre a mesa.
Mas quem olha apenas para a mesa em Brasília perde metade da história.
É nessa mesma rodada que se organiza praticamente toda a eleição brasileira. Além de confirmar candidatos à Presidência e à Vice-Presidência da República, as convenções oficializam os nomes que disputarão os governos estaduais, o Senado, a Câmara dos Deputados e as Assembleias Legislativas.
Também é nesse momento que aparecem as negociações mais sensíveis, porém menos visíveis, para quem acompanha a política apenas pelo noticiário: coligações, federações, escolhas de vice e montagem das chapas proporcionais.
É quando a habilidade política passa a valer tanto quanto a popularidade. Às vezes até mais. Afinal, na política, nem sempre ganha quem fala mais alto. Muitas vezes ganha quem sabe conversar baixinho na sala ao lado.
🧩 A mesa
E aqui, em que pé estamos?
No Espírito Santo, a nossa sopa de letrinhas também continua fervendo e a mesa ainda está sendo posta. O MDB caminha para homologar a candidatura de Ricardo Ferraço ao governo, dentro do grupo político liderado por Renato Casagrande, do PSB. Antes mesmo da convenção, Ferraço já reúne uma ampla frente de apoio formada por Podemos, União Brasil, PP, PSDB, Cidadania, Rede, Solidariedade e Agir. O discurso apresentado até aqui gira em torno da continuidade administrativa, da responsabilidade fiscal, do desenvolvimento regional e da manutenção dos investimentos realizados pelo atual governo.
Na raia ao lado corre o prefeito de Vitória, Lorenzo Pazolini, do Republicanos, com apoio declarado do PL. Sua pré-campanha aposta na eficiência administrativa, na segurança pública, na gestão e na redução do desperdício. As bandeiras não são novas, mas continuam sendo as principais utilizadas para defender sua experiência na capital como credencial para disputar o governo do Estado.
Correndo por fora, o PT deverá homologar Hélder Salomão como candidato ao governo e Fabiano Contarato para o Senado. O discurso tem priorizado desenvolvimento regional, fortalecimento da agricultura familiar, ampliação das políticas públicas e maior participação popular nas decisões do Estado.
É o famoso mais do mesmo…
Enquanto isso, as atenções continuam voltadas para o PSD. Ao adiar sua convenção para o último dia do prazo legal, o partido acrescentou um tempero importante à sopa das negociações políticas. A legenda continua proseando com diferentes grupos e, por isso, segue como aquela panela no fogo que ninguém abre a tampa, mas todo mundo tenta adivinhar o que tem lá dentro.
☕ E daí?
À primeira vista, tudo isso pode parecer um assunto restrito aos partidos, aos políticos e aos bastidores de Brasília.
Só que não é bem assim. Basta sentar em uma mesa do Bar América, abrir os grupos da família ou lembrar como foram as últimas eleições para perceber que as convenções dificilmente ficam restritas aos auditórios onde acontecem. Política é igual cheiro de café passado: quando espalha, não adianta fechar a porta.
É dali que começam a sair os discursos, as frases de efeito, os vídeos, os slogans e as palavras escolhidas para ocupar espaço nas redes sociais, nos grupos de WhatsApp, nas conversas de família, no ambiente de trabalho e até naquela roda de café onde sempre aparece alguém dizendo: “Não gosto de falar de política…”, geralmente cinco segundos antes de começar um discurso de quinze minutos.
A campanha oficial ainda nem começou, mas a disputa pelas narrativas já está em andamento. É aquela briga que ninguém marcou no calendário, mas todo mundo já entrou sem perceber.
🎭 O palco
Quem disse que convenção partidária serve só para escolher candidato nunca prestou atenção no palco. Ali não se homologam apenas nomes. Homologam-se personagens.
Flávio Bolsonaro bateu no próprio braço, apontou para a veia e bradou: “Aqui tem sangue de Bolsonaro.” Em poucos segundos, a campanha entregou o recado. O sobrenome é apresentado como patrimônio político. Depois vieram segurança pública, liberdade econômica, família, um vídeo de Jair Bolsonaro produzido por inteligência artificial e manifestações de apoio do presidente argentino Javier Milei. Mas a fotografia da convenção já estava feita.
“Quem é esse cara?” A pergunta apareceu tantas vezes na pré-campanha de Ronaldo Caiado que quase virou refrão. A resposta vinha pronta: “Foi o Caiado que fez.” A mensagem dispensa legenda. Antes de pedir confiança para fazer, a campanha tenta convencer que ele já fez. É aquele velho ditado adaptado para a política: quem mostra serviço larga alguns passos na frente de quem promete começar.
E o Zema?
Romeu Zema nem precisava abrir o PowerPoint. Bastou abrir a boca. O sotaque mineiro entrou no palco junto com ele, naquele jeito manso de quem vai comendo o mingau pelas beiradas. E, como já aconteceu outras vezes, não demorou a reaparecer em memes, vídeos e imitações nas redes sociais. Uns riem, outros gostam, mas quase todo mundo lembra. Afinal, quem nunca ouviu um mineiro falar e ficou na dúvida se ele estava concordando, discordando ou apenas proseando?
Já o Lula…
Lula também não chegou sozinho ao microfone. Entrou acompanhado de um personagem conhecido do eleitor brasileiro. Em poucos minutos reaparecem o líder sindical, o presidente experiente e aquele jeito quase de pai de família dizendo que já viu tempos piores e sabe o caminho de casa. É uma figura que boa parte do eleitor reconhece antes mesmo de terminar a primeira frase.
Curioso é que, quando as luzes diminuem e sobra apenas o conteúdo, quase todo mundo promete a mesma coisa. Segurança. Saúde. Educação. Desenvolvimento. Eficiência. Infraestrutura. Responsabilidade fiscal.
Parece novidade, mas boa parte disso já está na lista de obrigações de qualquer governo. No fundo, é como abrir uma padaria anunciando que pretende vender pão fresco. Se não vender, tem problema. Se vender, fez apenas o esperado. E tem mais um detalhe: esse pão já foi pago. Nós financiamos essa padaria todos os dias por meio dos impostos justamente para que ela entregue o básico. O extraordinário deveria começar dali para frente.
Talvez por isso as campanhas invistam tanto na embalagem. Porque promessa parecida todo mundo faz. O difícil continua sendo convencer o eleitor de que, desta vez, o embrulho vem com um recheio diferente.
É aí que a eleição realmente começa. Não na urna. Nem no horário eleitoral. Começa quando uma palavra passa a valer mais do que uma proposta inteira.
Segurança. Democracia. Liberdade. Família. Inclusão. Desenvolvimento. Estado menor. Responsabilidade fiscal.
Escolha uma delas.
Nas próximas semanas ela vai aparecer no seu celular mais vezes do que a previsão do tempo. Vai surgir em vídeos de quinze segundos, em memes, figurinhas de WhatsApp, cortes de podcast, postagens patrocinadas e naquele parente que garante que “nem gosta de política”, mas encaminha vinte mensagens antes do café da manhã.
É assim que as narrativas ganham vida. Não chegam gritando. Entram de mansinho, igual vendedor que põe o pé na porta dizendo que é só “uma conversinha”. Quando a propaganda eleitoral finalmente começar, boa parte do serviço já terá sido feita.
A campanha oficial ainda espera autorização da Justiça Eleitoral.
Só que a televisão já mostrou. O celular já entregou. O grupo da família já discutiu. O meme já circulou. O vídeo já foi compartilhado. A narrativa já encontrou quem queria encontrar.
📌 Pauta Solta | Para pensar
Se a campanha oficial ainda não começou, por que tanta gente já escolheu de que lado vai discutir?
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👤 Sobre o autor
Adelar Dias Junior é jornalista (MTB/DRT 2593/ES), fundador e editor da Revista Pauta Solta. Escreve sobre política, comportamento e cotidiano com uma linguagem de conversa, valorizando a informação, o contexto e a reflexão crítica sem abrir mão do bom humor.
