STF abre a caixa-preta: agora a crise já não escolhe lado
Por Adelar Dias Junior | Jornalista – MTB 2593/ES

Caso Master abre sigilos, expõe conflitos no STF e faz a crise mudar de tamanho.
O STF resolveu abrir as gavetas. O problema é descobrir o que pode sair de dentro delas.
A crise no STF ganhou novos capítulos em velocidade de máquina de cortar cabelo. Edson Fachin suspendeu decisões conflitantes de André Mendonça e Flávio Dino sobre o comando da Polícia Federal, manteve Andrei Rodrigues no cargo, retirou Alexandre de Moraes da relatoria do inquérito das fake news, centralizou na Presidência procedimentos envolvendo integrantes da própria Corte e convocou sessão extraordinária para 15 de setembro.
Depois, Fachin solicitou a Mendonça o compartilhamento com os demais ministros dos procedimentos relacionados ao caso Master e a retirada do sigilo daquilo que pudesse ser tornado público sem prejudicar as investigações. Mendonça atendeu parcialmente: procedimentos ligados principalmente ao material envolvendo Moraes foram abertos, enquanto outras apurações continuam sob sigilo.
Se parece muita coisa para dois parágrafos, imagine explicar isso sentado na cadeira da Barbearia Dom Arildo, em Marechal Floriano, quando Gabriel está por lá — porque nem sempre está, e encontrar a porta aberta com ele dentro já garante corte e conversa.
A tesoura de Gabriel nem terminou a primeira passada e Brasília já tinha produzido outra novidade.
— Mas, afinal, quem está investigando quem?
Boa pergunta.
🧾 Reunião de condomínio
Talvez seja mais fácil imaginar uma reunião de condomínio.
O síndico chega dizendo que é preciso conferir as contas. Um morador pede extrato. Outro quer saber quem autorizou a despesa. O conselheiro reclama que a nota fiscal não apareceu. Um levanta a mão, dois falam juntos e, no fundo da sala, sempre surge aquele cidadão que ninguém convidou para ser auditor, mas já chegou com a sentença pronta.
— Mas quem aprovou isso?
Pronto. Guardadas as proporções, já temos um retrato razoável do clima no Supremo.
Fachin, como presidente da Corte, tenta colocar ordem na reunião, definir quem fala, quem decide e quais papéis precisam aparecer na mesa. Mendonça abriu parte das gavetas. Moraes questiona a condução de procedimentos que o alcançam. Enquanto isso, novas informações surgem antes que a tesoura de Gabriel consiga chegar ao outro lado da cabeça.
Desde nosso artigo anterior sobre o caso Master e a crise no STF, a conversa deixou de ser uma briga de corredor entre ministros.
A coisa cresceu.
Agora não se discute apenas decisão, despacho ou competência. Discute-se confiança.
E qualquer reunião de condomínio ensina uma lição simples: quando a prestação de contas começa a fazer o morador coçar a cabeça, até a troca da lâmpada do corredor vira assunto de assembleia.
No STF, evidentemente, a conta é bem mais alta.
E o prédio é a República.
⚖️ Quando a toga pesava
Talvez seja esse o pedaço mais amargo da conversa.
Houve época em que falar em Supremo era lembrar de uma instituição que, gostasse-se ou não de suas decisões, carregava uma aura de freio institucional.
Não era um templo de unanimidades. Nunca foi.
Também não havia santos de vitral sentados nas cadeiras.
Mas havia episódios que ajudaram a construir a imagem de um Tribunal disposto, em certos momentos, a enfrentar o poder quando o poder apertava demais o nó.
Durante a ditadura militar, ministros concederam habeas corpus contrariando interesses do regime. Ribeiro da Costa, então presidente da Corte, enfrentou publicamente tentativas de interferência no Tribunal.
A memória do próprio STF registra o episódio em que Ribeiro da Costa teria ameaçado entregar as chaves do Supremo caso os magistrados sofressem repressão em sua liberdade de julgar.
Depois do AI-5, em 1969, Victor Nunes Leal, Hermes Lima e Evandro Lins e Silva foram aposentados compulsoriamente. Gonçalves de Oliveira e Lafayette de Andrada deixaram a Corte em solidariedade.
Não é romantizar o passado.
O Supremo daquela época também tinha tensões, contradições, disputas internas e ministros escolhidos pelo poder político.
Só que alguns de seus integrantes deixaram uma imagem que atravessou décadas: a de que, em certos momentos, preservar a cadeira pode diminuir o Tribunal; arriscar a cadeira pode engrandecê-lo.
É justamente por isso que a fotografia antiga incomoda quando colocada ao lado da atual.
Hoje, o problema não cabe mais apenas no juridiquês.
Virou problema de confiança.
Levantamentos recentes apontam aumento da parcela de brasileiros que diz não confiar no STF. Além disso, ministros aposentados e ex-presidentes da Corte classificaram o momento como uma das crises mais graves já enfrentadas pelo Tribunal e defenderam apuração pública e rigorosa dos fatos.
Isso muda tudo, porque uma Suprema Corte não vive apenas de caneta, toga e Diário da Justiça.
Vive também de credibilidade.
E credibilidade é igual café passado na hora: demora para ficar bom, mas basta descuidar um instante para queimar.
Quando ministros passam a discutir publicamente investigações envolvendo colegas, quando decisões se atropelam e quando parte do país começa a olhar para a Corte mais como personagem da crise do que como árbitro dela, alguma coisa saiu do prumo.
A toga continua preta. A confiança é que já não está tão bem passada.
🐙 Tentáculos largos
Durante algum tempo, cada grupo político escolheu a parte preferida do escândalo como quem escolhe salgadinho no balcão.
Quando aparecia adversário, era prova definitiva de que “estava tudo dominado”.
Quando aparecia aliado, surgia imediatamente um curso intensivo sobre presunção de inocência, devido processo legal e prudência.
Curioso como a Constituição fica mais popular quando a investigação muda de lado.
Só que Daniel Vorcaro aparentemente não perguntava ideologia antes de guardar telefone.
As investigações e reportagens sobre o caso Master passaram a alcançar personagens de campos políticos e institucionais diferentes. Há apurações envolvendo nomes ligados à direita, ao centro e integrantes do próprio sistema de Justiça.
No caso do senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro, por exemplo, há investigação sobre recursos ligados à produção de um filme sobre Jair Bolsonaro. Flávio nega irregularidades, e a apuração ainda precisa percorrer todo o devido processo.
Do outro lado, Alexandre de Moraes enfrenta questionamentos decorrentes dos contatos revelados no material apreendido com Vorcaro. O ministro contesta as acusações e também reagiu questionando a condução de procedimentos por Mendonça.
É aí que o café precisa esfriar um pouco antes de alguém sair queimando a língua.
Investigação não é sentença, mas também não é enfeite de estante.
Se existem fatos relevantes, eles precisam ser esclarecidos. Não interessa se o nome da vez está à direita, à esquerda, no centro, no plenário ou no palanque.
A régua só serve se medir todo mundo do mesmo jeito.
🗳️ Salve-se quem puder
E aí chegamos à campanha eleitoral.
Até poucos dias atrás, atacar ou defender determinado ministro parecia estratégia simples. Escolhia-se o alvo, carregava-se o discurso e soltava-se o morteiro.
Agora convém olhar duas vezes antes de puxar o gatilho retórico, porque o problema é que os tentáculos cresceram, e cresceram para todos os lados.
Aliados de ontem começam a medir palavras. Adversários também. Aquela turma que até anteontem postava com exclamação agora descobriu a virtude do ponto final.
A eleição entra num estágio raro da política brasileira:
“vamos esperar mais um pouquinho antes de compartilhar.”
Quase um milagre cívico.
O motivo é simples. Quando a investigação começa a bater em várias portas, qualquer bomba lançada a esmo pode fazer uma curva e voltar para o quintal de quem acendeu o pavio. Por isso, a crise no STF entra na campanha não apenas como tema jurídico, mas como risco político.
Cada nova informação pode obrigar candidato, aliado e partido a recalcular discurso, distância e amizade.
Hoje abraça, amanhã diz que “nunca teve relação próxima”.
A política brasileira conhece bem esse tipo de memória seletiva. Por isso, o eleitor precisa olhar menos para quem está gritando mais e mais para quem aceita usar a mesma régua quando o investigado troca de camisa.
📦 BOX | Antes de escolher torcida
Quando aparecer uma nova “bomba” sobre o STF ou o caso Master, vale fazer quatro perguntas simples: quem divulgou? O documento diz realmente isso? Existe investigação ou já existe prova? E a mesma régua está sendo usada quando o citado é do outro lado?
Se a indignação muda conforme o nome escrito no processo, talvez não seja justiça que estejamos procurando.
Talvez seja apenas torcida com gravata.
💈 De volta à cadeira
Na Barbearia Dom Arildo, Gabriel pode terminar o corte, tirar a capa do freguês e devolver uma imagem um pouco mais organizada no espelho.
Em Brasília, Fachin tenta fazer algo parecido.
Só que cabelo cresce. Crise institucional também.
O Supremo não recuperará confiança escolhendo qual ministro proteger, qual político expor ou qual gaveta abrir de acordo com a conveniência do momento.
Recuperará confiança se mostrar que a regra vale para adversário, aliado, ministro, senador, candidato, amigo ou conhecido do amigo.
É simples de dizer, difícil é fazer.
A Constituição não pode funcionar como cardápio de boteco, em que cada um escolhe só o prato que lhe agrada.
Ou a regra vale para todos, ou vira enfeite de parede.
🤔 Para pensar
Talvez a maior crise do STF não esteja apenas no celular de Daniel Vorcaro, nos despachos de Mendonça, nas explicações de Moraes ou nas decisões de Fachin.
Talvez esteja numa pergunta muito mais simples:
o brasileiro ainda acredita que a mesma regra será aplicada a todos?
Se a resposta começar a ser “não”, nenhuma decisão judicial resolve sozinha.
Confiança demora anos para entrar pela porta. Para sair, às vezes basta um celular.
E você? O STF está enfrentando a crise com transparência ou apenas tentando administrar o estrago? Deixe sua opinião nos comentários. Aqui a conversa está aberta — desde que os fatos também estejam.
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📚 Referências
Supremo Tribunal Federal — Regime militar: os anos difíceis do Supremo: https://portal.stf.jus.br/noticias/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=124565&ori=1
Supremo Tribunal Federal — O Supremo Tribunal Federal e o golpe de 64: https://noticias.stf.jus.br/postsnoticias/o-supremo-tribunal-federal-e-o-golpe-de-64
CNN Brasil — Mendonça atende solicitação de Fachin e retira sigilo do caso Master: https://www.cnnbrasil.com.br/politica/mendonca-levanta-sigilo-do-caso-master
CNN Brasil — Entenda a crise no STF: o que dizem Moraes, Mendonça, Fachin e Gonet: https://www.cnnbrasil.com.br/politica/entenda-a-crise-no-stf-o-que-dizem-moraes-mendonca-fachin-e-gonet
SBT News — Fachin pede quebra de sigilo de ação sobre Vorcaro e Master: https://sbtnews.sbt.com.br/noticia/politica/fachin-pede-quebra-de-sigilo-de-acao-sobre-vorcaro-e-master
SBT News — Mendonça atende a Fachin e retira o sigilo do caso Master: https://sbtnews.sbt.com.br/noticia/politica/mendonca-atende-a-fachin-e-retira-o-sigilo-do-caso-master
Agência Brasil — Moraes encaminha a Fachin pedido de investigação contra Mendonça: https://agenciabrasil.ebc.com.br/justica/noticia/2026-09/moraes-encaminha-fachin-pedido-de-investigacao-contra-mendonca
Informações verificadas e atualizadas até 11 de setembro de 2026. Investigações, suspeitas e referências a pessoas citadas neste artigo não equivalem a comprovação de crime ou responsabilidade.
✍️ Sobre o autor
Adelar Dias Junior é jornalista (MTB: 2593/ES), formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Tocantins, e fundador da Revista Digital Pauta Solta. Atua no jornalismo de análise e comportamento, produzindo conteúdos que conectam informação, cotidiano e contexto social, com linguagem acessível e abordagem crítica.
