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Acidentes na BR-262: asfalto novo, perigo velho e voto na pista

Por Adelar Dias Junior – jornalista (MTB 2593/ES)

Acidentes na BR-262: trecho da rodovia à noite, em Domingos Martins, com veículos parados, caminhão e sinalização, ilustrando os riscos no trânsito durante obras na pista.
BR-262, em Domingos Martins: obras melhoram o pavimento, mas segurança continua exigindo atenção. Foto-base: Corpo de Bombeiros | Arte: Revista Pauta Solta.


A BR-262 recebe recapeamento e se livra de parte dos buracos. Ótimo. Mas uma nova morte em Domingos Martins lembra que segurança não se resolve apenas passando asfalto

Sente-se aqui, que teve mais morte na BR-262.

Está parecendo até série de streaming: quando a gente pensa que está acabando, pode fazer mais pipoca que lá vem outro capítulo.

Então, pegue um café, que vamos prosear sobre algo que insiste em tirar nosso sono — e, infelizmente, tirar vidas.

Desta vez, o capítulo dos acidentes na BR-262 tem um detalhe daqueles que fariam qualquer roteirista levantar a sobrancelha: a morte aconteceu justamente em um trecho de Domingos Martins que passa por obras de manutenção e funciona no sistema de Pare e Siga.

Enquanto o asfalto tenta melhorar de vida, a velha pergunta continua encostada no acostamento: o que precisa mudar para a BR-262 deixar de aparecer no noticiário acompanhada de sirene, ambulância e família chorando?

Antes, porém, de apontarmos o dedo para motorista, governo, DNIT, empreiteira, político ou até São Pedro, convém avisar: esta conversa não veio procurar um Judas para malhar.

Nessa história, tem dedo de muita gente.

E, para nosso desconforto, um deles pode ser o nosso.

🏍️ Outro capítulo

Na tarde de terça-feira, 8 de setembro, um motociclista morreu após uma colisão com um caminhão na BR-262, em Domingos Martins.

Segundo o Portal Dia a Dia, a vítima ficou presa sob o veículo, foi retirada pelos bombeiros e recebeu manobras de reanimação, mas não resistiu.

É daquelas notícias que cabem em poucas linhas e deixam um silêncio grande demais para caber nelas.

Segundo informações preliminares relatadas pelo motorista do caminhão, o motociclista teria iniciado uma ultrapassagem pela contramão e perdido o controle ao passar por um desnível.

Mas calma com a sentença.

A dinâmica e as causas ainda precisam ser esclarecidas pelas autoridades. Transformar uma versão inicial em veredito seria trocar jornalismo por tribunal de balcão — e disso já temos especialistas demais sem precisar abrir concurso.

Leia a reportagem do Portal Dia a Dia:

A tragédia veio logo depois de um feriado especialmente violento nas estradas capixabas. Entre 4 e 7 de setembro, a Operação Independência registrou, preliminarmente, 36 acidentes, 42 feridos e seis mortes nas rodovias federais do Espírito Santo.

Como o acidente de Domingos Martins ocorreu no dia 8, ele não entra nesse balanço.

Ainda assim, é difícil olhar para essa sequência e tratar cada morte como notícia solta, dessas que a gente lê, balança a cabeça e passa para a previsão do tempo.

🚧 Melhorou. E daí?

Aqui vale fugir daquela velha mania de transformar qualquer conversa em torcida organizada.

A BR-262 está recebendo recapeamento.

E isso é bom.

Quem passa pela rodovia e conhece os buracos capazes de fazer o motorista olhar para frente, para o retrovisor, para o caminhão ao lado e ainda pedir reforço ao anjo da guarda sabe que asfalto melhor não é pouca coisa.

O DNIT confirmou serviços de recapeamento entre os quilômetros 22 e 40, em Domingos Martins, com adoção do sistema de Pare e Siga durante a execução das intervenções. O próprio órgão orienta os motoristas a reduzir a velocidade, respeitar a sinalização e manter atenção redobrada.

Melhorar o pavimento poupa suspensão, pneu, roda, coluna e algumas palavras que cristão evita pronunciar quando cai numa cratera.

Mas é preciso separar as coisas.

A estrada melhorou? Sim.

O problema da estrada foi resolvido? Nem de longe.

Recapeamento é necessário, mas não transforma uma rodovia historicamente problemática naquela estrada moderna, segura e eficiente que aparece em promessa política com mais frequência do que café em reunião de campanha.

É como pintar a sala quando a casa precisa de reforma.

Fica melhor? Fica.

Resolve o piso desgastado, a infiltração, o telhado e aquela rachadura no canto da parede? Aí já é pedir demais para a lata de tinta.

🕳️ Essa novela é velha

Se você acompanha a Pauta Solta, talvez esteja tendo aquela sensação incômoda de déjà-vu.

E não é impressão.

A BR-262 já sentou algumas vezes nesta nossa sala de visitas.

Em abril, no artigo “BR-262: a cratera não nasce na chuva — ela só aparece nela”, mostramos que determinados problemas estruturais não surgem magicamente depois de uma tempestade. Muitas vezes, a água apenas tira a maquiagem da estrada.

Leia:

Pouco depois, voltamos ao assunto em “BR-262 entre a promessa e a realidade”. A conversa ali era sobre uma especialidade bastante conhecida de quem mora nas Montanhas Capixabas: ouvir há anos falar de uma rodovia e encontrar outra quando coloca os pneus na pista.

Leia:

Depois de outro acidente em Domingos Martins, a Pauta Solta também perguntou: até quando a rodovia da promessa vai cobrar vidas?

Leia:

Pois bem.

O asfalto recebeu tratamento. A pergunta, ainda não.

🚗 Tem dedo nosso

Agora vem a parte menos confortável da conversa.

Porque é fácil olhar para uma estrada ruim e colocar todas as mortes na mesma conta.

Só que a matemática do trânsito não fecha desse jeito.

Rodovia precisa de manutenção, engenharia, sinalização, fiscalização, investimento e planejamento. Autoridade pública tem responsabilidade e precisa responder por ela.

Mas motorista também não recebe imunidade diplomática só porque o asfalto tem defeito.

Ultrapassagem arriscada continua sendo arriscada; excesso de velocidade continua sendo excesso; celular continua tirando os olhos da pista; álcool continua combinando com mesa, não com volante; e tentar recuperar, em três quilômetros, os cinco minutos perdidos no Pare e Siga continua sendo uma péssima ideia.

No feriado da Independência, a Polícia Rodoviária Federal registrou nacionalmente 1.031 sinistros, 1.074 feridos e 66 mortes. Além disso, foram 993 autuações relacionadas à embriaguez, recusa ao teste ou constatação de álcool.

Ou seja: não dá para jogar tudo no colo do buraco.

Às vezes, o problema está entre o volante e o banco do motorista.

E, em algum momento, esse motorista podemos ser nós.

🚦 De quem é a culpa?

Talvez essa seja justamente a pergunta que precisamos parar de fazer desse jeito.

Procurar um culpado dá conforto. Encontrar responsabilidades dá trabalho.

A estrada tem problemas, e as autoridades precisam entregar soluções melhores e mais definitivas.

Obras de manutenção ajudam, mas não substituem planejamento de longo prazo.

Ao mesmo tempo, o motorista precisa entender que faixa contínua não é sugestão, limite de velocidade não é desafio e Pare e Siga não é autorização para recuperar atraso no acelerador.

E o eleitor?

Bem, o eleitor precisa perceber que obra pública também deveria pesar na escolha do candidato.

Não apenas aquela inaugurada com faixa, notícia na TV, fotografia no site e discurso.

Principalmente aquela prometida e nunca entregue.

📦 Antes de pegar a BR-262

Pé leve e cabeça ligada. Trecho de obra pede ainda mais cautela. Não é hora de testar potência, coragem ou proteção divina.

Pare e Siga não é largada de Fórmula 1. Quando a placa vira, não precisa imaginar que apagaram as cinco luzes vermelhas de Interlagos. Siga, mantenha distância e deixe a pressa alguns carros atrás.

Ultrapassagem exige visão, espaço e permissão. Faltou um dos três? Espere. A vida não vem com botão “voltar episódio”.

Celular pode esperar. Se a mensagem for realmente urgente, continuará urgente quando você parar em local seguro.

Cansaço também dirige. E dirige mal. Parar dez minutos pode parecer perda de tempo; perder o controle do carro custa muito mais.

🤔 Para pensar

Talvez um dos maiores problemas da BR-262 seja termos aprendido a conviver com o extraordinário como se fosse rotina.

Tem acidente, congestionamento, obra, promessa, outro acidente e começa tudo de novo.

O recapeamento melhora a rodovia, e isso precisa ser reconhecido. Mas melhorar não é resolver.

Da mesma forma, estrada ruim não dá licença para imprudência.

No trânsito, responsabilidade compartilhada não significa responsabilidade de ninguém.

O governo tem a sua. Os órgãos públicos têm a sua. Quem executa e fiscaliza obras tem a sua. Motoristas têm a sua. E nós, cidadãos e eleitores, temos a nossa.

Talvez seja hora, portanto, de trocar a pergunta.

Em vez de apenas perguntar “de quem é a culpa por tantas mortes na BR-262?”, que tal perguntar:

“Qual é o nosso dedo nessa história?”

Agora puxe o tamborete para mais perto e conte para a gente nos comentários.

Para você, o que mais pesa hoje na insegurança da BR-262: a estrutura da rodovia, a imprudência dos motoristas, a fiscalização ou a falta de uma solução definitiva?

E mais: as obras atuais já fizeram diferença para quem passa pela estrada diariamente?

A caixa de comentários está aberta.

Porque muita coisa sobre a BR-262 aparece nos relatórios. Mas quem encara essa estrada todo dia sabe aquilo que planilha nenhuma consegue contar.

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🔎 Referências

Portal Dia a Dia — acidente de 8 de setembro em Domingos Martins: https://diaadiaes.com.br/motociclista-morre-apos-ficar-preso-sob-caminhao-em-acidente-na-br-262/

Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) — informações sobre recapeamento e operação Pare e Siga na BR-262/ES: https://www.gov.br/dnit/

Polícia Rodoviária Federal — informações e balanços de segurança nas rodovias federais: https://www.gov.br/prf/

Revista Pauta Solta — Acidente na BR-262 reacende alerta sobre segurança: https://pautasolta.com/acidente-br-262-seguranca-rodovia-domingos-martins/

Revista Pauta Solta — Cratera na BR-262 expõe falha na rodovia: https://pautasolta.com/cratera-br-262-falha-rodovia/

Revista Pauta Solta — BR-262: promessa e realidade nas Montanhas Capixabas: https://pautasolta.com/br-262-promessa-realidade-montanhas-capixabas/

Sobre o autor

Adelar Dias Junior é jornalista (MTB: 2593/ES), formado em jornalismo pela Universidade Federal do Tocantins e fundador da Revista Digital Pauta Solta, com atuação voltada ao jornalismo de análise e comportamento, produzindo conteúdos que conectam informação, cotidiano e contexto social, com linguagem acessível e abordagem crítica.

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