🏁 Eleições 2026: O grid está formado. Agora é hora de abrir o capô. 🇧🇷
Por Adelar Dias Junior | Jornalista (MTB 2593/ES)

Arte: Revista Pauta Solta, com composição editorial e elementos gráficos produzidos com apoio de Inteligência Artificial sobre imagem de urna eletrônica do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
As convenções terminaram, os candidatos ocuparam suas posições no grid de largada e a campanha entrou na reta decisiva. Entre promessas parecidas e caminhos diferentes, a verdadeira escolha continua nas mãos do eleitor.
Se existe um assunto que aparece em tudo quanto é canto durante um ano eleitoral, é política. Ela invade o grupo da família, atravessa a fila da padaria, sobe na carroceria da caminhonete, entra no salão de beleza e até interrompe o churrasco de domingo. Em Marechal Floriano não é diferente. Basta passar alguns minutos na mesa do tradicional Bar América, que desde 1956 acompanha campanhas de todo tipo, ou sentar em um banco da praça para perceber que, mais cedo ou mais tarde, alguém solta a pergunta que inaugura qualquer temporada eleitoral.
— “E aí… já sabe em quem vai votar?”
Antes que alguém responda, outro já emenda:
— “Rapaz… e dessa vez muda alguma coisa?”
É justamente aí que começam, de verdade, as eleições de 2026.
As convenções terminaram e os partidos fizeram aquilo que, numa corrida de automóveis, seria a tomada de tempo para definir o grid de largada. Cada equipe escolheu seu piloto, conferiu o motor, apertou os últimos parafusos e colocou o carro na pista.
Agora acabou o treino. A luz vermelha acendeu.
Daqui para frente vai ter ultrapassagem, disputa por espaço, freada forte, toque de rodas, bandeira amarela e, inevitavelmente, alguém dizendo que perdeu porque largou alguns centímetros atrás. Na política brasileira também funciona assim. A diferença é que, em vez de capacete, o uniforme é o palanque.
🏎️ O grid de largada
A primeira fila já está desenhada.
De um lado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva busca renovar o contrato com o eleitor apostando na continuidade dos programas sociais, nos investimentos públicos e na presença mais forte do Estado como indutor da economia.
Ao seu lado aparece Flávio Bolsonaro, representando o grupo político construído em torno do ex-presidente Jair Bolsonaro, defendendo uma atuação mais enxuta do Estado, liberdade econômica, endurecimento da segurança pública e fortalecimento das pautas conservadoras.
Logo atrás aparecem Ronaldo Caiado, o médico que também conhece a rotina das fazendas e procura vender experiência administrativa e firmeza na gestão, e Romeu Zema, empresário que transformou o discurso da eficiência, do controle dos gastos públicos e da boa administração em sua principal marca política. Outros candidatos também entram na corrida tentando conquistar espaço antes da primeira curva, porque eleição é uma maratona disfarçada de corrida de velocidade. Quem larga na frente nem sempre recebe a bandeirada final.
Até aqui, qualquer semelhança com uma corrida é proposital.
Mas existe uma diferença importante.
Na Fórmula 1, quando a bandeira quadriculada aparece, a corrida termina. Na política brasileira, a corrida começa justamente depois que termina a apuração.
É quando o vencedor descobre que prometer era bem mais fácil do que entregar.
🔧 Abrindo o capô
Lembra do artigo da Política do Sabão em Pó?
Pois ele continua mais atual do que muito marqueteiro gostaria.
Durante a campanha, cada candidato aparece segurando uma embalagem diferente. Uma promete tirar a mancha mais difícil, outra garante perfume por mais tempo, uma terceira diz que lava melhor, rende mais e ainda protege as cores. A embalagem muda, a propaganda muda, o garoto-propaganda muda… mas, quando a gente chega em casa e abre a caixa, descobre que todas têm sabão dentro.
Na política acontece algo muito parecido.
Basta deixar de olhar para a embalagem por alguns minutos e abrir o capô das propostas. É aí que aparece uma curiosidade que costuma passar despercebida no calor da campanha: praticamente ninguém promete um Brasil pior. Todos falam em fazer a economia crescer, gerar mais empregos, melhorar a saúde, fortalecer a educação, aumentar a segurança, combater a corrupção, reduzir a pobreza e criar oportunidades.
Afinal, seria um suicídio eleitoral alguém subir num palanque dizendo que pretende aumentar a fila do hospital, deixar as escolas funcionando pior ou dificultar ainda mais a vida de quem trabalha.
Isso simplesmente não existe.
Os objetivos anunciados costumam soar parecidos. O que realmente diferencia uma candidatura da outra é a forma de alcançá-los — e, na política, caminhos diferentes podem produzir resultados completamente diferentes para empresas, trabalhadores, minorias e para o próprio papel do Brasil no mundo.
É justamente nesse ponto que a campanha ganha temperatura. Uns defendem que o motor do desenvolvimento deve ser o Estado, investindo mais e participando diretamente da economia. Outros acreditam que o combustível vem da iniciativa privada, da redução da máquina pública e de um ambiente mais favorável para quem produz e empreende.
Há quem aposte em programas sociais mais robustos como ferramenta para diminuir as desigualdades, enquanto outros preferem estimular investimentos e crescimento econômico acreditando que a riqueza produzida movimenta toda a engrenagem.
No fundo, é como quatro motoristas dizendo que querem levar os passageiros a um lugar melhor, mas cada um escolhe uma rota diferente, conduz o carro de uma maneira diferente e aceita riscos diferentes durante a viagem. É justamente essa escolha do caminho que determina onde, de fato, o país vai chegar.
Talvez seja justamente aí que mora uma das maiores armadilhas das campanhas eleitorais.
Enquanto a discussão fica presa na pintura do carro, pouca gente pergunta como anda o motor. E eleição decidida pela cor da lataria costuma terminar com o motorista descobrindo os problemas só depois que já saiu da concessionária.
☕ A mesa do Bar América
Quem acompanha eleições há algum tempo sabe que existem frases que sobrevivem a qualquer governo.
O Bar América, testemunha silenciosa de campanhas desde 1956, certamente já ouviu milhares delas.
Sempre aparece alguém dizendo que “na campanha todo carro sobe a serra carregado”. Outro responde que “promessa não paga prestação”. Um terceiro lembra que “depois da eleição acaba o sorriso e começa a conta”.
Entre um gole de café e outro, o humor popular costuma enxergar aquilo que muitas vezes escapa aos discursos cuidadosamente ensaiados.
Talvez por isso seja tão importante ouvir menos o volume da propaganda e prestar mais atenção na consistência das propostas.
Afinal, propaganda bonita existe para vender carro, sabão em pó e até condomínio com vista eterna para o pôr do sol.
Política deveria vender resultados.
🇧🇷 O volante continua nas mãos do eleitor
É aí que porca torce o rabo!
Existe um hábito brasileiro que talvez já merecesse aposentadoria. Transformar político em time de futebol.
Tem gente que veste a camisa, entra na arquibancada e passa quatro anos defendendo qualquer lance como se fosse final de campeonato. Se o governo acerta, foi genial. Mas se erra, a culpa é sempre de alguém: do Congresso, do Judiciário, da imprensa, da oposição, da situação, da economia mundial ou até da fase da Lua.
Enquanto isso, quem acorda cedo para trabalhar continua pagando a conta.
Democracia não funciona como torcida organizada. Funciona como um contrato de prestação de serviços. O eleitor entrega as chaves do país por quatro anos e, terminado esse período, faz apenas uma pergunta: entregou aquilo que prometeu? Se a resposta for sim, o contrato pode ser renovado. Se for não, troca-se o motorista.
Sem idolatria. Sem paixão cega. Sem transformar políticos em santos ou demônios. Porque, até hoje, nenhum deles fez milagre. E, quando prometeu, normalmente foi durante a campanha.
No fim das contas, quando a urna eletrônica for ligada e chegar a hora de apertar o botão CONFIRMA, talvez a pergunta mais importante não seja quem fala mais alto, quem viralizou mais nas redes sociais ou quem tem a propaganda mais bonita.
A pergunta que realmente importa é outra: quem apresentou o caminho mais consistente para levar o Brasil ao destino que todos dizem querer?
Porque a largada já aconteceu.
Agora começa a corrida de verdade. E, quando a bandeira quadriculada aparecer daqui a quatro anos, quem continuará enfrentando a fila do posto de saúde, pagando impostos, procurando emprego, empreendendo e colocando comida na mesa será exatamente quem hoje está escolhendo o motorista.
💭 Para pensar
Toda campanha começa com discursos. Todo governo termina com resultados.
Promessas costumam apontar para um futuro melhor. O que realmente diferencia uma candidatura é o caminho escolhido para chegar até ele — e as consequências que esse caminho produz na economia, na vida das pessoas, nas empresas, nas oportunidades e na posição do Brasil no mundo.
Na hora de votar, vale menos escolher a embalagem e mais entender o motor.
📚 Leia também na Revista Pauta Solta
🧺 A Política do Sabão em Pó.
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📖 Referências
Tribunal Superior Eleitoral (TSE) – Calendário e informações oficiais das Eleições 2026 https://www.tse.jus.br
Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm
Portal da Legislação – Presidência da República https://www.planalto.gov.br
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) https://www.ibge.gov.br
✍️ Sobre o autor
Adelar Dias Junior é jornalista (MTB 2593/ES), fundador e editor da Revista Digital Pauta Solta. Escreve sobre política, economia, comportamento e cotidiano, sempre buscando traduzir temas complexos para uma linguagem próxima da conversa de mesa de café, sem abrir mão da análise crítica e do compromisso com a informação.
