🐆📱 Era uma onça-pintada ou a pintura de uma onça? Marechal Floriano entrou na era da fake fauna
Por Adelar Dias Junior | Jornalista – MTB 2593/ES

Crédito: Foto original de Adelar Dias Junior | Arte: Revista Pauta Solta com auxílio de IA
Imagens de uma suposta onça-pintada circularam pelas redes, assustaram moradores de Marechal Floriano e mobilizaram até o Ibama. No fim, sobrou uma pergunta maior que o bicho: até onde uma imagem pode mandar na nossa vida?
Viram a onça?
Calma. Antes de procurar o bicho no mato, talvez seja melhor procurar de onde veio a fotografia.
Durante alguns dias, uma onça-pintada em Marechal Floriano fez aquilo que muito influenciador passa meses tentando conseguir: viralizou.
A história correu pelas redes sociais e pelos grupos de WhatsApp. Era na região de Aparecidinha, também conhecida como Basílio, na ligação entre Marechal Floriano e Alfredo Chaves.
E veio acompanhada daquele tempero que deixa qualquer história da internet com cara de verdade:
— É imagem de câmera de segurança.
Pronto.E a onça correu.
Só havia um pequeno detalhe. Talvez a onça-pintada fosse, na verdade, a pintura de uma onça.
Aí a prosa muda.
Porque o bicho pode até não ter saído do celular.
O medo saiu.
🐆 Cadê a onça?
A onça foi colocada lá para os lados de Aparecidinha.
Mas bastava alguém parar para tomar um cafezinho na Panificadora Pão Dourado, no centro de Marechal Floriano, puxar conversa com dona Ana e, provavelmente, a onça já estaria sentada à mesa também.
— Você viu o que apareceu lá para o Basílio?
É assim que uma história corre numa cidade pequena. Primeiro aparece no celular, depois entra no grupo, chega à padaria, ao balcão, à fila, à conversa na rua e, quando se vê, ninguém sabe mais exatamente onde a história começou, mas quase todo mundo já ouviu falar dela.
Aí entra aquela velha pergunta que deveria ter aparecido antes do segundo gole de café:
mas cadê a onça?
A história ficou grande o suficiente para sair dos grupos de mensagens e chegar ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, o Ibama.
Segundo publicação oficial da Prefeitura de Marechal Floriano, de 27 de agosto, técnicos do órgão analisaram dois registros atribuídos à suposta presença do animal.
Num deles apareceram problemas de pixelização, posicionamento do animal, iluminação, integração com o ambiente, proporção e escala. No outro, a análise encontrou fortes indícios de manipulação ou geração sintética, inclusive com possibilidade de uso de Inteligência Artificial.
Além disso, houve diligência no local associado a um dos registros.
Segundo o Ibama, um dos registros é certamente falso. Já o outro apresenta fortes indícios de manipulação e/ou geração sintética. Considerando também dados de monitoramento e registros históricos da fauna, o órgão avaliou como altamente improvável a presença de uma onça-pintada solta naquela região.
Ou seja: a onça provavelmente não passeou por Aparecidinha. Mas passeou bonito pelo WhatsApp, pela conversa de balcão e, se deixar, até toma café no centro de Marechal Floriano.
E aqui acende outra luz amarela.
Se era uma câmera de segurança, onde está o arquivo original? Quem entregou a gravação? Quem foi o primeiro a divulgar?
A própria análise técnica “trupicou” num detalhe importante: os arquivos originais não estavam disponíveis para uma auditoria completa dos metadados.
Então vale guardar uma regra para a próxima prosa:
“Veio de uma câmera de segurança” não é fonte.
É só uma frase até alguém mostrar qual câmera, onde estava, quando gravou e quem possui o arquivo original.
😨 O medo corre
Agora imagine a conversa do outro lado da tela.
Você mora numa área rural. Tem filho que pega transporte escolar, cachorro no terreiro, galinha no quintal, precisa chegar em casa à noite e talvez ainda caminhe um trecho no escuro.
Então chega a fotografia:
— Tem uma onça rondando por aqui.
A partir dali, até o mato que sempre esteve no mesmo lugar parece diferente. Um barulho no quintal ganha importância, o cachorro late e alguém olha pela janela, a criança precisa sair e bate aquela dúvida:
— Será que é seguro?
É aí que a brincadeira deixa de ser brincadeira.
Provavelmente não havia onça, mas havia gente com medo da onça. E medo verdadeiro não precisa de perigo verdadeiro para mudar comportamento.
Esse talvez seja o pedaço mais importante dessa história: o virtual não mora mais apenas no virtual.
Hoje carregamos no bolso uma rede informal de notícias capaz de atravessar uma cidade em minutos. E ela é fantástica quando ajuda a localizar pessoas desaparecidas, divulgar campanhas, avisar sobre acidentes ou espalhar informação útil.
O problema é que a mesma estrada que leva notícia boa também transporta bobagem, boato e mentira.
A mentira costuma viajar de moto, enquanto a verdade ainda está procurando a chave do carro.
Os antigos diziam que uma mentira repetida muitas vezes acaba parecendo verdade. Hoje nem precisa repetir tanto.
Basta viralizar.
Daí nasce uma confusão perigosa: “todo mundo está falando” começa a valer como prova de que aconteceu.
Não vale.
💰 Enquanto você encaminha…
Agora chega a parte da conversa que merece mais um café.
Na internet, atenção vale dinheiro.
Nem toda visualização vira pagamento direto. Porém, visualizações, compartilhamentos, comentários e seguidores constroem audiência. E audiência pode virar influência, publicidade, monetização e dinheiro.
Então a conta é simples: alguém fabrica ou manipula um conteúdo chamativo, você vê, se impressiona, compartilha e ajuda aquilo a ganhar alcance.
Quem fez a distribuição?
Nós.
Com nosso celular, nossa internet, nosso tempo e, pior ainda, nossa credibilidade, viramos vendedores voluntários da fábrica de fatos.
O sujeito produz, nós entregamos, ele ganha audiência e nós não recebemos nem o cafezinho. Como modelo de negócio, convenhamos, é uma beleza, mas só para quem está do outro lado.
Por isso, quando compartilhamos qualquer coisa sem verificar, talvez não estejamos apenas espalhando uma história. Podemos estar trabalhando de graça para quem descobriu que fabricar espanto dá audiência.
O produto não é a onça, o produto é a nossa atenção.
📦 ANTES DE VIRAR REPÓRTER DO GRUPO
Recebeu uma imagem assustadora? Antes de encaminhar, faça o teste do café.
Quem publicou? Se a resposta for “mandaram no grupo”, ainda não temos fonte.
Onde aconteceu? Nome da cidade sozinho não basta.
Tem o arquivo original? Print de print merece desconfiança.
Qual câmera gravou? Se disseram que veio de câmera de segurança, pergunte onde ela está e quem é o responsável.
Alguma fonte oficial confirmou? Procure órgão público, polícia, Defesa Civil, Ibama ou outro setor ligado ao assunto.
E, principalmente, pergunte:
preciso mesmo encaminhar agora?
Na dúvida, espere. Dois minutos de pesquisa podem evitar dois dias de confusão.
E se a história vier acompanhada de “pode compartilhar porque é verdade”, coloque mais açúcar no café.
A prosa pode demorar.
🤔 Quantas onças?
Talvez alguém olhe para tudo isso e pense:
— Mas foi só uma brincadeira.
Foi?
Para quem produziu ou colocou uma imagem falsa em circulação, pode até ter sido. Mas para quem acreditou que havia um animal perigoso rondando sua comunidade, não.
O episódio de Marechal Floriano é interessante justamente porque não aconteceu num lugar distante. Foi aqui, numa região conhecida, com gente conhecida e uma história que ganhou aparência de notícia porque circulou rápido.
Antigamente, alguém chegava à mesa do café dizendo:
— Rapaz, você não sabe o que eu vi ontem…
Aí vinha a pergunta:
— Viu onde?
Depois outra:
— Quem estava com você?
E, se a história estivesse esticando demais, alguém já cortava:
— Ah, deixa de conversa.
Talvez esteja faltando levar um pouco dessa velha sabedoria da mesa de café para a internet. Porque agora uma conversa não precisa convencer quatro pessoas sentadas ao redor da mesa.
Pode chegar a quatro mil antes que alguém pergunte:
— Mas essa história veio de onde?
A onça de Aparecidinha talvez nunca tenha colocado as patas por lá, mesmo assim, conseguiu assustar gente, movimentar redes e mobilizar um órgão ambiental.
Isso deveria nos ensinar alguma coisa.
Porque a próxima “onça” talvez não seja uma onça. Pode ser uma pessoa, uma empresa, um político ou um vizinho e aí a mentira pode mexer com reputação, causar prejuízo e produzir um medo muito maior.
Na internet, a tinta seca depressa.
💬 E você, recebeu alguma das imagens da suposta onça de Aparecidinha? Acreditou? Conhece alguém que ficou preocupado ou mudou a rotina por causa delas?
Conte nos comentários.
E responda também:
quantas “onças” nós mesmos já ajudamos a soltar por aí apertando o botão de compartilhar?
Essa prosa merece continuar.
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📚 Fontes
Prefeitura Municipal de Marechal Floriano — IBAMA aponta fortes indícios de falsificação em imagens de suposta onça-pintada na região de Marechal Floriano
https://www.marechalfloriano.es.gov.br/ibama-aponta-fortes-indicios-de-falsificacao-em-imagens-de-suposta-onca-pintada-na-regiao-de-marechal-floriano/
IBAMA — Informação Técnica nº 60/2026
Documento técnico citado e disponibilizado por meio da publicação oficial da Prefeitura Municipal de Marechal Floriano.
✍️ Sobre o autor
Adelar Dias Junior é jornalista (MTB: 2593/ES), formado em jornalismo pela Universidade Federal do Tocantins, é fundador da Revista Digital Pauta Solta, com atuação voltada ao jornalismo de análise e comportamento, produzindo conteúdos que conectam informação, cotidiano e contexto social, com linguagem acessível e abordagem crítica.
