Eleições 2026, domingo está chegando
Por Adelar Dias Junior — jornalista (MTB 2593/ES)

Domingo são 18 números. Mas a escolha pode atravessar gerações
Domingo de eleição tem um ritual que o brasileiro conhece.
Documento separado. Local de votação conferido. Um café antes de sair. E, neste ano, uma colinha no bolso que vai precisar estar caprichada.
São seis escolhas: deputado federal, deputado estadual, primeiro senador, segundo senador, governador e presidente da República. Ao todo, 18 algarismos para quem votar nominalmente em todos os cargos: quatro, cinco, três, três, dois e dois. Parece muita coisa para guardar na cabeça.
Mas, falando sério, talvez seja justamente aí que esteja o primeiro engano.
O difícil não deveria ser decorar os números. O difícil deveria ser escolher os nomes que vão atrás deles.
Porque número se anota num pedaço de papel.
Mandato não.
A colinha 📝
A Justiça Eleitoral colocou na propaganda da TV, com direito a musiquinha e tudo, a recomendação de levar a colinha em papel. Tem que ser no papel, pois o celular não pode acompanhar o eleitor até a cabine de votação.
Ótimo.
Mas a colinha mais importante começa antes do papel.
Começa quando o eleitor pesquisa quem é o candidato, o que já fez, o que defende, quais são suas propostas e se aquilo que promete pertence realmente às atribuições da cadeira em que pretende sentar.
Começa também quando o eleitor deixa de tratar eleição como campeonato de futebol.
Político não precisa de torcida organizada.
Precisa ser observado, questionado, cobrado e, principalmente, escolhido.
E campanha eleitoral é uma época em que todo candidato parece ter encontrado a solução para alguma coisa. Alguns, mais animados, parecem ter encontrado a solução para todas as coisas.
Por isso, antes de colocar um nome na colinha, vale conferir.
Quem é? Qual sua trajetória? Já exerceu cargo público? Se exerceu, o que fez? O que promete agora? Aquilo que promete pode realmente ser feito pelo cargo que disputa?
Suas propostas combinam com aquilo que você considera importante para o município, o estado e o país?
E há uma pergunta particularmente necessária na época das redes sociais:
você escolheu esse candidato ou alguém escolheu por você?
Porque receber um vídeo no WhatsApp não é pesquisar.
Assistir a um corte de quinze segundos também não.
Nem acreditar automaticamente na propaganda favorável ou naquela feita exclusivamente para destruir o adversário.
A pergunta antes de escrever cada número deveria ser simples:
Por que esta pessoa merece receber de mim uma procuração para exercer poder em meu nome?
Se a resposta não vier, talvez ainda não seja hora de pegar a caneta.
Escolher exige algum trabalho.
Ainda bem.
A coxinha 🥟
Imagine outra cena.
Você está ali na lanchonete do Marcony, pertinho da agência da Caixa, em Marechal Floriano.
Uma coxinha com catupiry na frente, talvez um café acompanhando, quando chega aquela conversa eleitoral.
Não a conversa saudável sobre política.
A outra.
Aquela conversa com cheiro de vantagem.
Pode mudar a embalagem conforme a época: um favor aqui, uma ajudinha acolá, gasolina, material, dinheiro, emprego ou qualquer benefício pessoal oferecido em troca do voto.
Existe até aquela velha história, repetida há décadas no imaginário político brasileiro, do sujeito que entregava um pé do chinelo antes da eleição e prometia entregar o outro depois de eleito.
É quase uma caricatura.
Mas a compra de votos não é caricatura.
A Lei das Eleições chama de captação ilícita de sufrágio, nome pomposo para oferecer, prometer, doar ou entregar ao eleitor bem ou vantagem pessoal com a finalidade de obter o voto.
Então, se algum cabo eleitoral aparecer enquanto você estiver cuidando da coxinha querendo transformar voto em mercadoria, talvez nem mereça que ela esfrie.
Pense comigo: se alguém está disposto a comprar o caminho até o mandato, o que pretende fazer quando chegar lá?
Voto não é favor recebido.
Muito menos dívida a ser paga.
E quatro ou oito anos custam caro demais para serem trocados por um pé de chinelo.
Até porque pode chegar janeiro e você descobrir que o outro pé nunca existiu.
Monte a mesa 🧩
Depois de escolher cada nome, falta um exercício que talvez seja um dos mais importantes desta eleição.
Coloque todos eles, mentalmente, em volta da mesma mesa.
Deputado federal, deputado estadual, senador, outro senador, governador e presidente.
Observe a composição que você mesmo montou.
No Brasil, ninguém é obrigado a votar de maneira vinculada. O eleitor tem liberdade para escolher candidatos de partidos, grupos e posições políticas diferentes, e isso pode ser absolutamente consciente.
Alguém pode desejar um Legislativo mais próximo das propostas do Executivo, enquanto outro eleitor pode querer exatamente o contrário: representantes que façam oposição, fiscalização e contrapeso.
São escolhas políticas possíveis.
O problema não é a divergência. O problema é produzir uma contradição sem perceber que a produziu.
Imagine escolher um presidente porque concorda com determinado projeto para o país e, sem pensar no conjunto, escolher parlamentares porque defendem justamente impedir aquele projeto.
Ou fazer o contrário.
Escolher deputados e senadores porque acredita em determinada agenda e entregar o Executivo a alguém que pretende seguir caminho diferente.
Isso pode ser intencional.
Mas foi?
Essa é a pergunta.
Não são ilhas 🏝️
Presidente não governa sozinho.
Governador também não.
Câmara dos Deputados, Senado e assembleias legislativas não são figurantes esperando o Executivo terminar a fotografia.
Legislam, fiscalizam, discutem orçamento e exercem competências próprias. Cada cargo colocado diante do eleitor neste domingo possui atribuições diferentes.
Por isso, aqueles seis votos não vivem em seis gavetas completamente separadas.
Depois da eleição, as pessoas escolhidas terão de governar, legislar, fiscalizar, negociar, concordar algumas vezes e discordar em outras. Divergência faz parte da democracia.
Paralisia involuntária não precisa fazer parte da escolha do eleitor.
Coerência, portanto, não significa obrigatoriamente votar em candidatos do mesmo partido.
Significa conseguir responder:
que tipo de composição estou ajudando a construir com o conjunto dos meus votos?
E há outra coisa que muita gente esquece na hora de escolher deputado federal e estadual.
Você pode gostar muito do candidato.
Mas precisa olhar também para o partido ou federação pelo qual ele disputa.
Deputados são escolhidos pelo sistema proporcional. Os votos dados aos candidatos e às legendas participam do cálculo que determina quantas cadeiras cada partido ou federação poderá ocupar.
Ou seja: na eleição proporcional, conhecer somente o nome do candidato deixa parte da escolha sem resposta.
Vale perguntar também quem está junto com ele.
Que partido é esse?
Que posições costuma defender?
Quem mais pode chegar ao Legislativo com a força eleitoral daquela legenda ou federação?
Mais uma vez, não existe resposta que a Revista Pauta Solta possa dar pelo eleitor.
Existe uma pergunta que ela pode colocar sobre a mesa.
Talvez essa pergunta valha mais que qualquer santinho.
Sua escolha ☕
No domingo, mais de 158 milhões de brasileiros estarão aptos a votar.
É muita gente, muita expectativa, muita promessa, muito vídeo, muito santinho, muito número e, provavelmente, muita mensagem chegando no WhatsApp até a última hora permitida pela legislação.
Mas, diante da urna, sobra uma pessoa.
Você.
Para pensar
A urna vai tomar poucos minutos do seu domingo.
Deputados, governador e presidente eleitos terão quatro anos de mandato. Os senadores escolhidos ficarão oito.
Mas algumas decisões tomadas durante esses mandatos podem continuar produzindo consequências muito depois de eles terminarem. Talvez cheguem aos nossos filhos, aos nossos netos.
Por isso, domingo não leve para a urna simplesmente seis números que alguém colocou na sua mão.
Leve seis escolhas que passaram pela sua cabeça.
Democracia não exige que todo mundo escolha igual.
Exige liberdade para escolher.
E liberdade sem responsabilidade corre o risco de virar apenas um botão apertado na urna.
O voto é seu, a escolha também. Mas as consequências serão de todos.
Omissão não é uma opção.
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Referências
Tribunal Superior Eleitoral — Eleições 2026: ordem de votação na urna eletrônica.
Tribunal Superior Eleitoral — Colinha eleitoral para as Eleições 2026.
Tribunal Superior Eleitoral — Manual do Eleitor: celular é proibido na cabine.
Tribunal Superior Eleitoral — Lei nº 9.504/1997, art. 41-A, sobre captação ilícita de sufrágio.
Tribunal Superior Eleitoral — Sistemas eleitorais e regras das eleições proporcionais.
Sobre o autor
Adelar Dias Junior é jornalista, fundador e editor da Revista Digital Pauta Solta. Mineiro de nascimento e morador das Montanhas Capixabas, escreve sobre política, comportamento e cotidiano tentando fazer aquilo que uma boa conversa de mesa sempre fez: colocar os assuntos complicados em linguagem que caiba no café — sem pedir licença para fazer perguntas.
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