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Quando a emoção não encontra palavras, ela procura outros caminhos para fluir

Por Jovaneide Polon

Psicóloga Jovaneide Polon ao lado do laço amarelo da campanha Setembro Amarelo, em imagem sobre saúde emocional e a importância de reconhecer e expressar as emoções.
Quando a emoção não encontra palavras, ela encontra outros caminhos. E o silêncio também pode estar dizendo muita coisa. Créditos: foto de Jovaneide Polon cedida pela autora; imagem do Setembro Amarelo fornecida para composição; arte: Revista Pauta Solta com auxílio de IA.

Setembro Amarelo não precisa ser apenas sobre falar. Talvez precise ser sobre aprender a não esconder aquilo que estamos sentindo.

Vivemos em um tempo que nos ensinou a viver na exposição, mostrando a nossa vida em flashs, mas nem sempre sentindo de verdade. Nessa enxurrada de informações, somos levados a agir no automático, como se nada pudesse sair do script planejado. Mas a vida não é sobre cartilhas e trilhas.

Publicamos conquistas, viagens, encontros, projetos, sorrisos. Aprendemos a dizer “está tudo bem” quase automaticamente, mesmo quando alguma coisa dentro de nós está pedindo pausa, cuidado ou simplesmente espaço para existir.

Talvez um dos grandes desafios do nosso tempo não seja apenas sentir. É permitir-se sentir sem culpa, sem julgamento e com um olhar de cuidado com a gente mesmo.

Porque tristeza parece fraqueza. Cansaço parece falta de competência. Ansiedade parece exagero. Medo parece incapacidade. Frustração parece fracasso.

E, quando começamos a nos comparar com quem parece estar dando conta de tudo, aquilo que sentimos ganha ainda mais peso.

“Todo mundo consegue. Por que eu não consigo?” parece que não fui ensinado a lidar com essas coisas na minha vida, será?

“Eu devia agradecer mais e reclamar menos”

“Eu deveria ser mais forte.”

“Não quero preocupar ninguém com minhas questões, todo mundo já tem suas lutas”

“Isso vai passar.” Às vezes passa. Mas, às vezes, não passa.

Quando sentir pesa 🧠

E o problema não é sentir uma emoção difícil. O problema começa quando não encontramos espaço para reconhecê-la, compreendê-la e expressá-la do nosso jeito, sem ficar buscando palavras que expliquem algo que ainda nem conseguimos nomear.

Uma emoção não desaparece simplesmente porque decidimos não falar sobre ela.

Ela pode aparecer no corpo, no comportamento e nas relações.

Pode virar irritação constante, uma necessidade de isolamento, alterações no sono, dificuldade de concentração, perda de interesse pelas coisas que antes faziam sentido, crises de ansiedade, excesso de trabalho, compulsões, por compras, uso abusivo de álcool ou outras formas de tentar anestesiar aquilo que não conseguimos elaborar.

Nem todo cansaço é apenas cansaço, ou pode ser um cansaço que vai além do físico,

Nem todo silêncio é tranquilidade ou falta do que fazer,

Nem todo “não estou com vontade” é preguiça ou desculpa para se comprometer,

Nem toda mudança de comportamento deve ser interpretada como falta de interesse. Podem ser pedidos silenciosos de cuidado.

Sinais silenciosos 👀

Por isso, cuidar da saúde emocional também significa desenvolver a capacidade de perceber pequenas mudanças em nós mesmos e nas pessoas que fazem parte da nossa vida. Nas relações é identificar que nós mudamos e o outro também mudou.

Vale também apenas sentir, não para diagnosticar, não para rotular, mas para apenas se ouvir.

“O que está acontecendo com você?”

E, principalmente, estar disposto a escutar a resposta.

Expressar sem falar 🎨

Expressar não significa necessariamente falar. Existe uma ideia equivocada de que precisamos colocar tudo em palavras para cuidar das nossas emoções. Nem sempre.

Há pessoas que conseguem falar. Outras precisam primeiro escrever. Algumas encontram na música, na arte, na oração, na espiritualidade, na caminhada, na atividade física ou em momentos de silêncio uma forma de organizar aquilo que ainda não conseguem explicar. Os sonhos são também reveladores do que está acontecendo internamente e podem nos ajudar nesse caminho de autoconhecimento.

Pode ser escrever aquilo que não conseguimos dizer olhando nos olhos de alguém.

Pode ser chorar sem pedir desculpas pelo choro. Simplesmente se acolher.

Pode ser reconhecer: “Eu preciso de ajuda.”

Pode ser estabelecer um limite,

Pode ser procurar um profissional.

Pode ser simplesmente permitir-se parar e perguntar:

“O que eu estou sentindo e do que eu preciso neste momento?”

Nem toda emoção precisa imediatamente de uma solução. Algumas precisam primeiro ser reconhecidas e assim abrir espaços para fluir mais livremente.

Cuidar antes da crise 🌱

Cuidado integral não é esperar adoecer para começar a cuidar

Falamos muito sobre prevenção, mas prevenção não deveria começar quando a pessoa já está no limite, já está adoecida mental ou fisicamente.

Cuidar integralmente significa olhar para a pessoa antes da crise.

Significa prestar atenção ao sono, à alimentação, ao movimento, a respostas automáticas, aos vínculos, ao descanso, ao trabalho, ao lazer, à espiritualidade, aos pensamentos e à forma como estamos lidando com aquilo que nos acontece.

Cuidar da saúde emocional não é eliminar emoções desconfortáveis. É ampliar nossa capacidade de lidar com elas.

Dor não se compara 🤝

E talvez precisemos parar de competir com a dor dos outros

Uma das frases mais perigosas para quem está sofrendo é: “Você não tem motivo para estar assim.” Lembre-se que o motivo é sempre da pessoa e não do que achamos sobre a situação.

A dor não funciona por comparação. O fato de alguém estar enfrentando uma situação aparentemente mais difícil não torna o sofrimento de outra pessoa menos legítimo.

Comparar dores não produz acolhimento. Produz culpa, necessidade de buscar soluções que não cabem ao que estamos vivendo.

E culpa costuma fazer aquilo que já estava difícil ficar ainda mais doloroso. Por isso, precisamos substituir algumas perguntas.

Em vez de:

“Você precisa ser forte.”

talvez:

“Você não precisa passar por isso sozinho(a).”

Em vez de oferecer imediatamente uma solução:

“Eu posso simplesmente ficar aqui e te ouvir.”

E escutar não significa concordar com tudo, ter respostas para tudo ou assumir a responsabilidade pelo sofrimento do outro. Significa oferecer presença, escuta e amparo.

“Tem alguma coisa que você está carregando sozinho?”

São perguntas que abrem portas e podem nos ajudar a refletir mais profundamente sobre como estamos.

Acolher a emoção 💛

O cuidado começa quando deixamos de esconder a emoção que vem!

Setembro Amarelo pode ser muito mais do que uma campanha anual. Pode nos lembrar de uma prática para todos os meses: – não esconder de nós mesmos aquilo que estamos sentindo.

Não precisamos transformar toda emoção em exposição pública. Não precisamos contar tudo para todos.

Precisamos, sim, ter espaços seguros onde possamos existir sem precisar performar força o tempo inteiro.

Precisamos de relações nas quais seja possível dizer:

“Eu não sei o que está acontecendo comigo.”

“Eu estou cansado.”

“Eu estou com medo.”

“Eu não estou conseguindo.”

“Eu preciso conversar.”

“Eu preciso de ajuda.”

E precisamos também aprender a oferecer esse espaço para outras pessoas.

Porque, muitas vezes, o primeiro passo para o cuidado não é uma grande mudança.

É uma pequena permissão: a permissão para sentir sem se culpar, expressar sem se envergonhar e pedir ajuda sem acreditar que isso nos torna menos fortes.

Antes do limite 🫂

As emoções chegam. Algumas passam rapidamente. Outras permanecem e pedem atenção.

Não precisamos ter medo de toda emoção que chega. Precisamos aprender a escutá-la antes que ela precise encontrar caminhos cada vez mais dolorosos para ser percebida, que pode achar espaço no próprio corpo, na mente e nas emoções,

Talvez seja esse um dos sentidos mais profundos do cuidado: não esperar que alguém chegue ao limite para perguntar se está tudo bem.

E, quando percebermos que não está, não responder com julgamento. Responder com presença.

“Eu estou aqui. Quer conversar?”

Para pensar 💭

Talvez cuidar da saúde emocional comece antes de encontrarmos as palavras certas. Comece quando nos damos permissão para reconhecer o que sentimos — e quando oferecemos ao outro um espaço seguro para fazer o mesmo.

Referências 📚

– Brito, Diego: artigo publicado na revista Vida Simples- As emoções precisam fluir – Edição 292 – Ano 24, pág 35.

– Stappen, Anne Van – Caderno de EXERCÍCIOS para cuidar de si mesmo – editora vozes, terceira edição – série praticando o Bem-estar.

Sobre a autora ✍️

Jovaneide Polon é psicóloga, consultora organizacional e especialista em desenvolvimento humano, gestão de pessoas e carreiras. Fundadora da Polon Consultoria Empresarial & Desenvolvimento Humano, atua com liderança, clima organizacional, recrutamento e seleção, desenvolvimento de equipes e saúde mental no ambiente de trabalho.

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