Pauta Solta levantou a lebre. Prefeitura respondeu. E o cartão?
Por Adelar Dias Junior — jornalista (MTB 2593/ES)

Um dia depois de o Tamborete mostrar servidores encontrando avisos de não aceitação do O² Plus, Município diz que pagou e notificou a empresa. A explicação começou. A solução ainda precisa chegar ao caixa.
Imagine a cena.
Arroz. Feijão. Café. Leite. Um pedaço de carne, se a conta deixar. O servidor faz a compra pensando no que está faltando em casa, chega ao caixa, coloca tudo na esteira e apresenta o cartão.
Não passa.
Pior: o saldo está lá.
Agora imagine recolher as sacolas que nem chegaram a ser sacolas, deixar a compra e voltar para casa tentando explicar que tem dinheiro no cartão, mas o dinheiro não compra.
É aí que uma discussão sobre contrato, operadora, repasse e procedimento administrativo deixa de ser papelada e entra na cozinha da família.
Foi essa lebre que a Revista Pauta Solta levantou na segunda-feira, ao publicar as fotografias feitas por servidores diante de avisos colocados em estabelecimentos de Marechal Floriano: O² Plus temporariamente não aceito. A revista perguntou o que estava acontecendo e deixou o espaço aberto para Prefeitura, operadora e comércio se manifestarem. Pauta Solta
Nesta terça-feira, a Prefeitura se pronunciou.
Ótimo.
O Tamborete puxou a cadeira. Agora vamos ouvir — e também ler as letras miúdas.
🧾 Eu paguei
A primeira informação da nota oficial é importante: a Prefeitura afirma que os pagamentos à empresa responsável pelo cartão-alimentação estão em dia e aponta o Portal da Transparência para consulta.
Traduzindo do administrativês para o balcão do boteco:
“Da nossa parte, a conta foi paga.”
É uma resposta e precisa ser registrada. Mas ela resolve apenas uma parte do quebra-cabeça.
Porque o servidor não compra arroz com comprovante de pagamento da Prefeitura. Ele compra com o cartão.
E o cartão precisa passar.
🐇 A lebre
A Prefeitura também reconhece os relatos de que o cartão não está sendo aceito em alguns estabelecimentos e informa que notificou a O² Plus Card, cobrando informações e solução.
Diz ainda que procurou comerciantes para entender o motivo da não aceitação.
Aqui a conversa avançou.
Na segunda, tínhamos fotografias feitas pelos servidores e avisos nas portas e caixas. Agora temos também o Município reconhecendo oficialmente que existe uma situação a ser esclarecida.
O Tamborete perguntou:
se tem saldo, por que não passa?
A Prefeitura respondeu uma parte:
“Nós pagamos.”
Muito bem.
Então nasce a próxima:
se a Prefeitura pagou, onde a engrenagem travou?
🔄 De novo?
E aqui entra aquela parte da prosa que não cabe varrer para debaixo do balcão.
Não é a primeira vez.
Em fevereiro, o Requerimento nº 24/2026 já relatava servidores tentando utilizar o auxílio-alimentação em estabelecimentos cadastrados e tendo o benefício recusado. O documento registra, inclusive, situações em que as compras chegaram ao caixa e os produtos precisaram ser devolvidos. Os vereadores pediram explicações, comprovantes de pagamento e providências para evitar a repetição do problema. Requerimento nº 24/2026 — SAPL
Estamos em setembro. E cá estamos nós falando de cartão recusado outra vez.
Pode ser outra causa? Claro.
Pode ser outro problema? Também.
O que não dá é chamar de novidade uma cena que já teve temporada anterior.
Se em fevereiro houve alerta, a pergunta agora não é apenas “o que aconteceu?”.
É também:
o que foi feito para não acontecer de novo?
⚙️ No caminho
A nota informa que a Prefeitura está avaliando alternativas para melhorar o funcionamento do benefício, dar segurança aos servidores e fortalecer o comércio local.
Também afirma que, caso seja constatada falha ou descumprimento contratual da empresa, serão adotadas as medidas administrativas cabíveis.
Aqui o Tamborete marca a página.
Porque a O² Plus não apareceu ontem nessa história. A Prefeitura anunciou a nova empresa aos servidores em novembro de 2025. Prefeitura de Marechal Floriano E os contratos preveem justamente o fornecimento e o gerenciamento do auxílio-alimentação.
Mais: outro requerimento da Câmara, o nº 26/2026, já cobrou informações sobre a execução desses contratos e destacou que eles estabelecem quantitativo mínimo de estabelecimentos credenciados, pedindo, inclusive, a relação atualizada da rede ativa. Requerimento nº 26/2026 — SAPL
Então não basta saber se existe saldo eletrônico.
É preciso saber se existe benefício funcionando na vida real.
Cartão-alimentação sem lugar para comprar comida é quase como guarda-chuva que só abre quando não chove.
Bonito na mão.
Pouco útil na hora necessária.
🔎 Falta uma cadeira
A Pauta Solta levantou a lebre.
A Prefeitura falou.
E a Pauta Solta registra integralmente o essencial de sua posição: diz estar em dia com os pagamentos, notificou a operadora, procurou comerciantes, acompanha o caso e promete providências se houver descumprimento contratual.
A cadeira que continua vazia nesta mesa é a da O² Plus Card.
É a empresa que pode ajudar a responder o pedaço da pergunta que permanece sem explicação pública:
por que estabelecimentos deixaram de aceitar o cartão?
Há valores devidos aos comerciantes? Existe problema operacional? Houve descredenciamento? Quando a aceitação será normalizada?
Sem a resposta da empresa, qualquer conclusão sobre a causa seria chute.
E o Tamborete serve café, não bola de cristal.
Para pensar
Se a Prefeitura pagou, o servidor tem saldo e o comércio não recebe, quem ainda precisa fazer o dinheiro chegar até a compra?
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✍️ Sobre o autor
Adelar Dias Junior é jornalista (MTB 2593/ES), formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Tocantins e fundador da Revista Digital Pauta Solta. Atua no jornalismo de análise e comportamento, produzindo conteúdos que conectam informação, cotidiano e contexto social, com linguagem acessível e abordagem crítica.
Página do autor:
https://pautasolta.com/adelar-dias-junior/

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