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🚗⚡ Carro elétrico: do “cachacinha” à tomada… e por que a gente sempre desconfia do futuro?

Por Adelar Dias Junior | Jornalista – MTB 2593/ES

Montagem comparando uma antiga picape coberta de lama, em uma estrada rural típica das Montanhas Capixabas, e um moderno carro elétrico BYD estacionado em uma rodovia asfaltada. Os dois veículos estão voltados um para o outro, separados por um grande ponto de interrogação, simbolizando o contraste entre tradição e inovação. No canto superior esquerdo, o título: "Carro elétrico: do 'cachacinha' à tomada... e por que a gente sempre desconfia do futuro?". Na parte inferior, a marca www.pautasolta.com.
🚗⚡ O brasileiro nunca teve medo de carro. Sempre teve medo da novidade. Do “cachacinha” ao carro elétrico, a estrada mudou. E nós… será que mudamos na mesma velocidade?
Créditos: Arte: Revista Digital Pauta Solta. Composição: IA com foto autoral da miniatura (Adelar Dias Junior) e imagem de divulgação do BYD Seal (BYD Auto), para fins jornalísticos e ilustrativos.

Quem nunca olhou de banda para um carro elétrico? Antes de responder, vale lembrar que o brasileiro já desconfiou do carro a álcool, do celular, do cartão por aproximação e até do PIX. Talvez o problema nunca tenha sido a tecnologia e sim a novidade.


Tem conversa que não começa na concessionária.

Começa na mesa do café.

Essa é uma delas.

Quem nunca olhou de banda para um carro elétrico? A primeira reação quase sempre é a mesma. A gente estranha, faz cara de quem não está muito convencido, dá uma volta em torno do carro tentando descobrir onde está o motor e, antes mesmo de entrar, já dispara a pergunta:

— Mas… e quando acaba a bateria?

Se você nunca fez isso, provavelmente conhece alguém que fez.

E quer saber? Não é a primeira vez que o brasileiro reage assim.

Lá no começo da década de 1980, meu pai apareceu com uma novidade que prometia mudar a forma de dirigir no Brasil. Tinha “pegado” um Fiat 147L a álcool. O famoso “cachacinha”. Como ele me levava para a escola antes de seguir para o trabalho, nossa rotina começava um pouco mais cedo do que a dos vizinhos.

Enquanto eu terminava o café, ele já estava na garagem. Ligava o carro e deixava o motor aquecendo com toda a paciência do mundo. Nos dias frios, então, parecia que o Fiat também tinha resolvido ficar mais cinco minutinhos debaixo das cobertas. A gente olhava para o relógio, ele olhava para a gente e o Fiat parecia responder, na maior tranquilidade:

— Calma… hoje eu ainda não estou inspirado.

Hoje essa lembrança rende boas risadas. Naquele tempo, porém, quem tinha um daqueles estava dirigindo o futuro… ou pelo menos era isso que diziam.

A novidade provocou tanta conversa, tanta piada e tanta desconfiança que acabou virando música. Em 1981, o compositor Aciolly Neto resumiu aquele momento com um refrão que ainda faz muita gente sorrir:

“Oh! yes, nós have um problema
Nós num have mesmo é solução
Pondo pinga no motor
Vai faltar pro eleitor
Anestesiar o coração.”

O tempo tem uma mania curiosa: transforma discussão em costume.

Hoje ninguém mais pergunta se carro a álcool funciona. A conversa mudou completamente. O debate agora é saber se compensa abastecer com etanol ou gasolina, qual mistura rende mais e em que posto o preço está melhor. O combustível deixou de ser motivo de desconfiança para virar apenas mais uma escolha do dia a dia.

Talvez seja exatamente isso que esteja acontecendo com o carro elétrico.

🔋 O carro mudou. Nós nem tanto.

Sempre acontece do mesmo jeito.

Aparece uma novidade e logo surge alguém dizendo que aquilo nunca vai dar certo. Outro garante que não serve para a realidade brasileira. Um terceiro prefere esperar “mais uns cinco anos”. Passa um tempo, alguém compra, o restante faz fila para conhecer e, quando menos se espera, aquilo já virou paisagem.

Foi assim com o carro a álcool.

Foi assim com o carro flex.

Foi assim com o PIX.

Está sendo assim com o carro elétrico.

Enquanto isso, os números seguem falando mais alto do que as opiniões.

Segundo a Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), o Brasil bateu recordes de vendas de veículos eletrificados em 2025 e manteve um forte ritmo de crescimento em 2026. Boa parte desse avanço veio da chegada de novas montadoras, principalmente chinesas, como a BYD, que já iniciou sua produção no Brasil, ampliando a oferta e aproximando essa tecnologia do bolso do consumidor.

O carro elétrico deixou de ser personagem de reportagem estrangeira e começou a aparecer na garagem do vizinho.

Aí não tem jeito.

Quando o vizinho compra, a curiosidade costuma vencer a desconfiança.

⚙️ O que já evoluiu… e o que ainda precisa evoluir

Seria exagero dizer que todos os problemas desapareceram.

Não desapareceram.

Mas muitos deles ficaram no retrovisor.

As baterias evoluíram bastante, a autonomia aumentou e diversos modelos já percorrem mais de 400 quilômetros com uma única carga. As garantias oferecidas pelos fabricantes também cresceram, dando mais segurança para quem ainda teme o custo de uma futura substituição.

Só que nem tudo são flores.

A pergunta seguinte costuma aparecer naturalmente:

— Tá… e onde eu carrego isso?

É aí que entra um desafio real. A infraestrutura de carregamento continua crescendo, mas ainda não acompanha o ritmo das vendas em todas as regiões. Além disso, encher um tanque de combustível continua levando poucos minutos, enquanto recarregar uma bateria exige um pouco mais de tempo e planejamento.

Não existe milagre.

Existe adaptação.

⛰️ E nas Montanhas Capixabas, funciona?

Essa talvez seja a pergunta que mais interessa para quem mora por aqui.

Porque viver em Marechal Floriano não é o mesmo que viver em São Paulo.

Pode reparar. Basta o assunto aparecer que alguém já pergunta:

— Quero ver subir a serra.

— Na estrada de chão aguenta?

— E quando chover?

— E se eu resolver passar o dia lá para os lados de Rio Fundo?

São perguntas legítimas.

O motor elétrico responde imediatamente ao acelerador, característica que favorece justamente as subidas. Já a frenagem regenerativa — nome bonito para dizer que o carro aproveita as descidas para devolver um pouco de energia às baterias — acaba transformando a serra em aliada da autonomia.

O desafio continua sendo outro.

A rede de carregadores ainda cresce mais devagar do que o mercado e exige planejamento para quem percorre grandes distâncias ou frequenta áreas rurais. Para boa parte dos motoristas urbanos, isso já deixou de ser um problema. Para quem vive no interior, ainda faz parte da conta.

☕ O futuro costuma chegar desse jeito

No fundo, essa conversa nunca foi apenas sobre carro.

Sempre foi sobre nós.

O mesmo brasileiro que um dia desconfiou do álcool.

Depois torceu o nariz para o carro flex.

Mais tarde jurou que nunca faria um PIX.

Agora olha atravessado para um carro que quase não faz barulho. Depois levanta os olhos, abre o velho álbum da memória e quase consegue ouvir o ronco grave de um Opala 4.100 passando na rua. Dá até para sentir aquele cheiro de gasolina mal queimada que, por incrível que pareça, também virou lembrança boa.

A verdade é que a tecnologia muda muito mais rápido do que as nossas certezas.

E isso talvez nem seja um defeito.

É apenas a forma que encontramos de testar o novo antes de convidá-lo para entrar na garagem.

Talvez daqui a vinte anos alguém conte aos netos que, em 2026, havia quem dissesse que carro elétrico era só uma moda passageira ou que passaria horas esperando uma bateria recarregar.

Do mesmo jeito que hoje eu conto, dando risada, das manhãs em que meu pai descia mais cedo para acordar o velho Fiat 147L antes de me levar para a escola.

A estrada continua em frente.

O combustível muda.

E nós vamos mudando junto… mesmo jurando que não.

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Fontes


Sobre o autor

Adelar Dias Junior é jornalista (MTB: 2593/ES), formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Tocantins, fundador da Revista Digital Pauta Solta, com atuação voltada ao jornalismo de análise e comportamento, produzindo conteúdos que conectam informação, cotidiano e contexto social, com linguagem acessível e abordagem crítica.

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