Quando o jogo de azar se veste de brincadeira
✍️ Por Adelar Dias Junior | Jornalista – MTB 2593/ES

Imagem: montagem produzida pela Revista Pauta Solta com fotografia de autoria de Adelar Dias Junior e ilustração criada por inteligência artificial, inspirada na estética de publicidade de apostas online.
Tigrinhos, coelhinhos, personagens simpáticos, cores vibrantes e influenciadores famosos fazem parte de uma comunicação cuidadosamente construída para transformar um jogo de azar em algo que parece muito menos arriscado do que realmente é.
A conversa agora é séria.
Durante décadas, bastava olhar para um cassino para saber exatamente onde você estava. Curioso é que a maioria dos brasileiros nunca entrou em um.
Os cassinos são proibidos no Brasil desde 1946. Ainda assim, quase todo mundo consegue imaginar a cena. E não foi porque conheceu de perto. Foi porque Hollywood fez questão de apresentá-la.
Roletas, cartas, fichas, máquinas caça-níqueis, luzes fortes, tapetes vermelhos, homens de smoking, mulheres com vestidos de gala e montanhas de dinheiro sobre as mesas. Filmes como Onze Homens e um Segredo, de 2001, ajudaram a transformar Las Vegas em símbolo mundial de glamour, luxo e apostas. Era impossível confundir. Aquela decoração já dava o recado antes mesmo da primeira ficha entrar na mesa: ali tinha dinheiro correndo de um lado para o outro, champanhe sobrando… e risco sentado na primeira fila.
Agora pense comigo.
Ninguém entrava em um cassino acreditando que estava fazendo um investimento. Muito menos que participava de uma simples brincadeira.
O jogo de azar sempre teve cara de jogo de azar. Como dizia o pessoal mais antigo, “quem entra na chuva é para se molhar”. Ou, como diria o saudoso Vicente Matheus, “quem está na chuva é para se queimar”. Quem passou dos 50 provavelmente sorriu agora. Mas, brincadeiras à parte, quem atravessava aquelas portas sabia muito bem onde estava se metendo.
Até ontem.
Hoje, o jogo mudou.
E talvez essa seja a maior transformação da indústria das apostas nos últimos anos.
O risco continua exatamente o mesmo.
Quem mudou foi a roupa.
🎰 O desaparecimento
Hoje, fica até difícil saber se é um desenho animado ou uma plataforma de apostas.
Boa parte desses jogos trocou a cara dos antigos cassinos por bichinhos simpáticos, moedas pulando pela tela, músicas alegres, fogos de artifício, bônus, recompensas e animações muito parecidas com as dos jogos de celular.
Olha só que interessante.
O cassino saiu dos grandes hotéis de Las Vegas e passou a caber no bolso.
Não é mais preciso comprar passagem, reservar hotel ou vestir um terno elegante. Basta um celular — e nem precisa ser daqueles que custam um rim e mais algumas prestações. Se tiver sinal de internet, está valendo. Pode ser sentado na vendinha à beira da estrada do Seu Joaquim, esperando o café passar. Pode ser no banco da pracinha de Marechal Floriano, no intervalo do trabalho ou no sofá de casa. Antes, a pessoa ia até o cassino. Agora, o cassino bate à porta. Ou melhor, vibra no bolso.
A mudança parece estética.
Mas dificilmente é apenas estética.
Hoje, propaganda boa quase nunca parece propaganda. Ela não vende só um produto. Ela muda o jeito que a gente olha para ele. Não é à toa que o velho ditado diz que “a primeira impressão é a que fica”. O marketing sabe disso há muito tempo e não costuma dar ponto sem nó. Quando tudo parece diversão, o perigo continua ali. Só deixa de chamar tanta atenção.
Não significa que o jogo tenha ficado menos arriscado.
Significa apenas que ele aprendeu a parecer menos perigoso.
🧸 Tem um detalhe…
Existe um detalhe curioso.
As apostas esportivas e os jogos online são proibidos para menores de dezoito anos. Ainda assim, basta olhar a cara de algumas das plataformas mais populares para perceber uma semelhança que salta aos olhos.
O Tigrinho, o Coelhinho, o Macaquinho, o Touro e tantos outros personagens compartilham olhos grandes, expressões amigáveis, movimentos exagerados e uma explosão de cores que lembram muito mais o universo do entretenimento do que o ambiente tradicional de um jogo de azar. Convenhamos: um tigre sorrindo, distribuindo moedas e comemorando vitórias parece chamar para brincar, não para colocar dinheiro em risco.
Todos eles parecem ter algo em comum: transformam uma atividade de risco, destinada exclusivamente a adultos, em algo que lembra muito mais um passatempo do que uma aposta. Em alguns casos, parece até brincadeira de celular.
Este artigo não pretende afirmar que isso seja ilegal. Essa conclusão cabe aos órgãos responsáveis pela fiscalização e ao Poder Judiciário.
Mas existe uma pergunta que merece ser feita.
Se o produto é destinado exclusivamente a adultos, por que tanta coisa ali lembra um cantinho da fantasia?
Talvez o debate não esteja no personagem.
Mas na sensação que ele produz.
Porque um tigre simpático desperta uma emoção completamente diferente daquela provocada por uma máquina caça-níqueis. E, como o povo costuma dizer, o coração quase sempre chega antes da razão. Quem trabalha com propaganda sabe disso. E sabe muito bem.
🎭 Parece. Mas é?
Durante muito tempo, bastava identificar o intervalo comercial para perceber que alguém estava tentando vender alguma coisa. Era a hora de buscar um café, abrir a geladeira ou aproveitar para ir ao banheiro. Todo mundo sabia que aquilo era propaganda.
Hoje essa fronteira ficou muito mais tênue.
As campanhas deixaram de falar apenas por anúncios e passaram a falar por pessoas. Influenciadores digitais não mostram somente uma plataforma. Mostram uma rotina, uma viagem, uma conquista, uma comemoração e um estilo de vida que desperta admiração em milhões de seguidores. É aquela velha conversa de mesa de bar: “Se deu certo para ele, quem sabe não dá certo para mim?”. Ou aquela outra, ainda mais perigosa: “Ele não colocaria a cara dele numa coisa dessas”. A propaganda conhece esse caminho de cor.
O consumidor já não enxerga apenas uma empresa anunciando.
Enxerga alguém em quem aprendeu a confiar.
A propaganda deixa de parecer propaganda e passa a soar como conselho de um conhecido. Já não se vende apenas um aplicativo. Vende-se um jeito de viver, uma imagem de sucesso e aquela velha impressão de que “todo mundo está fazendo”. Quando a gente percebe, já nem está olhando para o aplicativo. Está olhando para a vida de quem apareceu usando ele.
Não é por acaso que os influenciadores passaram a ocupar um espaço cada vez maior nas discussões sobre responsabilidade na comunicação das bets. Mais do que divulgar plataformas, eles ajudam a fazer a aposta entrar na sala como quem é de casa. E quando uma visita aparece todos os dias, a gente quase para de perguntar se ela foi mesmo convidada.
Talvez seja justamente aí que esteja a maior mudança.
O jogo de azar continua sendo jogo de azar, o risco continua sendo risco e as probabilidades continuam as mesmas.
O que mudou foi a embalagem.
O cassino perdeu o carpete vermelho, guardou as fichas, trocou o smoking por um bichinho simpático e foi morar dentro do celular.
E talvez esse seja o maior desafio para quem aposta, para quem comunica e para quem fiscaliza: perceber que, às vezes, o maior truque não está no jogo.
Está na forma como ele se apresenta.
📌 Pauta Solta | Para pensar
O jogo de azar não deixou de ser jogo de azar.
O que mudou foi a forma de chegar até as pessoas.
Quando uma atividade de risco passa a parecer uma simples brincadeira, talvez a pergunta mais importante já não seja apenas:
“Isso é permitido?”
Talvez seja outra:
Será que ainda conseguimos enxergar o risco com a mesma clareza de antes?
Porque, no fim das contas, o maior truque talvez nunca tenha sido fazer alguém apostar.
Foi fazer a aposta parecer apenas mais uma brincadeira.
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🔎 Fontes de consulta e verificação
Legislação
Lei nº 14.790, de 29 de dezembro de 2023
Dispõe sobre a exploração comercial das apostas de quota fixa no Brasil.
https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2023/lei/l14790.htm
Secretaria de Prêmios e Apostas – Ministério da Fazenda
Normas, regulamentações e informações oficiais sobre o mercado de apostas.
https://www.gov.br/fazenda/pt-br/assuntos/premios-e-apostas
Publicidade e autorregulamentação
CONAR – Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária
https://www.conar.org.br/
Anexo “Apostas Esportivas” do Código Brasileiro de Autorregulamentação Publicitária
https://www.conar.org.br/
Referências técnicas
Daniel Kahneman
Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar.
Robert Cialdini
As Armas da Persuasão.
Organização Mundial da Saúde (OMS)
Informações sobre transtornos relacionados ao jogo.
https://www.who.int/
✍️ Sobre o autor
Adelar Dias Junior é jornalista (MTB/DRT 2593/ES), fundador e editor da Revista Pauta Solta.
Mineiro de nascimento, capixaba de coração e jornalista por formação e convicção, acredita que os melhores assuntos não precisam ser complicados para serem profundos. Escreve sobre comportamento, política, economia, tecnologia e o cotidiano brasileiro com uma linguagem que aproxima o leitor da conversa, sem abrir mão da informação, da independência editorial e do pensamento crítico.
Na Pauta Solta, sua proposta é simples: transformar temas complexos em boas conversas — daquelas que poderiam acontecer em uma mesa de café ou no balcão de uma vendinha do interior.
