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💡 Iluminação pública em Marechal Floriano: o que foi prometido e o que ainda se vê nas ruas

✍️ Por Adelar Dias Junior | Jornalista – MTB 2593/ES

Vista noturna da Rua Manoel Kill, em Marechal Floriano (ES), mostrando um longo trecho com três postes apagados e iluminação insuficiente. A imagem destaca a escuridão em uma das principais vias da cidade, com veículos estacionados e iluminação concentrada apenas ao fundo. No canto superior esquerdo, o título do artigo: "Iluminação pública: o que foi prometido e o que ainda se vê nas ruas". Na parte inferior, a assinatura visual da Revista Pauta Solta.
Quando a rua escurece, a conversa acende.

📍 Trecho da Rua Manoel Kill, em Marechal Floriano (ES).

Imagem produzida pela Revista Pauta Solta a partir de quadro extraído de vídeo gravado por morador.

Vídeo mostrando três postes apagados em um dos principais acessos de Marechal Floriano reacendeu a sensação de insegurança entre moradores e trouxe de volta o debate sobre a iluminação pública no município.

Tem um velho costume do brasileiro.

A gente só lembra de algumas coisas quando elas deixam de funcionar. É assim com a internet, é assim com a água e, pelo jeito, também é assim com a iluminação pública.

Enquanto a rua está iluminada, ninguém pergunta quem troca a lâmpada, quanto custa o contrato ou qual empresa venceu a licitação. Mas basta apagar um trecho inteiro… pronto. Antes mesmo de alguém procurar o número do poste, a conversa já começou.

Foi exatamente assim na Rua Manoel Kill.

Um vídeo mostrando três postes apagados, deixando um longo trecho completamente às escuras, desde as proximidades da região central até a altura do Supermercado Supertop, voltou a circular entre moradores. Quem conhece aquele caminho sabe que não estamos falando apenas de lâmpadas queimadas. É uma das principais vias da cidade, por onde passam trabalhadores voltando para casa, comerciantes fechando as portas, famílias indo ao supermercado, gente saindo da igreja e moradores que simplesmente querem chegar em casa com tranquilidade.

Quando a iluminação desaparece, não é apenas a luz que faz falta.

A rua muda de comportamento. Quem está de carro acelera um pouco mais. Quem está a pé olha para trás mais vezes. Quem conhece continua andando porque já decorou o caminho. Quem não conhece pensa duas vezes. É curioso como a escuridão consegue mudar até o jeito das pessoas caminharem. Não precisa acontecer nada. Basta a sensação de que pode acontecer.

E foi ali que a conversa começou. Não na Prefeitura, nem na Câmara, muito menos dentro de um processo licitatório. Começou na rua. Como quase tudo que realmente importa para quem vive a cidade.


💡 A pergunta

Tem um detalhe interessante nessa história.

Ninguém que compartilhou aquele vídeo perguntou qual era o número do processo administrativo. Também ninguém quis saber qual artigo da nova Lei de Licitações estava sendo aplicado.

A pergunta era muito mais simples.

— Ué… mas não tinham trocado tudo por LED?

E quer saber?

A pergunta merece respeito.

Afinal, muita gente ainda se lembra do carro de som percorrendo Marechal Floriano anunciando a modernização da iluminação pública. Quem ouviu aquilo fez a mesma conta que qualquer um faria:

“Então esse assunto está resolvido.”

Só que a rua tem uma mania.

Ela não lê edital, não acompanha parecer técnico e muito menos participa de audiência pública. A rua simplesmente mostra o que está acontecendo.

E, naquele trecho da Manoel Kill, ela resolveu contar uma história diferente.

Foi aí que o Pauta Solta voltou a abrir a pasta da iluminação pública.

E não é que encontramos uma situação curiosa? Enquanto um trecho importante da cidade permanecia no escuro, os bastidores nunca estiveram tão iluminados.

Tem investimento da EDP. Tem recomendação do Tribunal de Contas. Tem audiências públicas. Tem fiscalização da Câmara Municipal. Tem nova licitação. Tem parecer técnico. Tem diligências. Tem garantia prevista em lei.

Documento, convenhamos, não faltou.

Se papel iluminasse rua, aquele trecho da Manoel Kill provavelmente seria hoje o mais claro de Marechal Floriano.

Só que papel faz outra coisa, papel explica o processo.

Quem ilumina rua continua sendo luminária funcionando.

Talvez seja justamente entre essas duas coisas que esteja o verdadeiro assunto desta reportagem.

Aliás, já que estamos falando de iluminação pública, vale um exercício simples.

Na próxima vez que chegar sua conta de energia, olhe com calma a descrição da cobrança. Está lá, discretamente, uma linha que muita gente nunca reparou.

Contribuição para Iluminação Pública (CIP).

Ou seja, iluminação pública não é presente. Também não é favor. É um serviço financiado todos os meses pela própria população. E justamente por isso entender como ele funciona deixa de ser curiosidade. Passa a ser direito.


💡 Lembra disso?

Quando o Pauta Solta falou desse assunto pela primeira vez, a conversa era outra. A notícia era boa. A Prefeitura anunciava um investimento superior a R$ 750 mil, por meio do Programa de Eficiência Energética da EDP, para substituir centenas de luminárias convencionais por tecnologia LED.

Também eram apresentados projetos de modernização do parque de iluminação, economia de energia e implantação de sistemas de telegestão capazes de tornar a manutenção mais eficiente.

E vamos combinar uma coisa.

Seria injusto dizer que isso não é importante. É, e muito.

Cidade que investe em iluminação pública investe em segurança, economia, qualidade de vida e desenvolvimento.

O problema é que notícia boa, sozinha, não ilumina rua.

Quem faz isso é luminária funcionando.

Talvez tenha sido exatamente aí que a história mudou de direção. Vieram audiências públicas, requerimentos apresentados pelos vereadores, recomendações do Tribunal de Contas, fiscalizações do Legislativo e, agora, uma nova licitação para manutenção da iluminação pública municipal.

Enquanto isso, a Rua Manoel Kill parecia fazer uma pergunta silenciosa para toda a cidade.

Será que o tempo dos documentos anda na mesma velocidade do tempo vivido por quem passa na calçada?

Porque, convenhamos, processo administrativo não volta para casa depois das seis da tarde.

Quem volta é o morador.


💡 A conta

Foi durante essa nova apuração que apareceram documentos importantes para compreender o momento atual.

A Prefeitura abriu um processo para contratar a empresa responsável pela manutenção preventiva e corretiva de praticamente todo o parque de iluminação pública do município.

Até aqui, tudo dentro da rotina da administração pública.

Mas um detalhe chamou atenção. O orçamento estimado ficou em aproximadamente R$ 645 mil, enquanto a proposta vencedora foi apresentada por cerca de R$ 260 mil. Nem precisou chegar ao Bar América para imaginar como essa conversa seria. Sempre tem alguém que encosta na cadeira, cruza os braços e solta aquele velho ditado que atravessa gerações.

“Quando a esmola é demais… até o santo desconfia.”

Calma.

Isso não significa que exista qualquer irregularidade.

Significa apenas que a própria Administração também resolveu olhar com mais atenção. A sessão foi suspensa, houve diligências, a Secretaria Municipal de Obras analisou a documentação, emitiu parecer técnico e a empresa precisou apresentar a garantia adicional prevista na Lei nº 14.133 antes da assinatura do contrato.

E aqui mora uma curiosidade interessante. A mesma cautela que aparece numa conversa de balcão também aparece na legislação. Quando um desconto é muito expressivo, a lei manda conferir se a conta realmente fecha.

Mas, curiosamente, essa acabou não sendo a maior dúvida desta reportagem.


💡 O desenho

Quanto mais documentos eram analisados, mais uma imagem aparecia na cabeça.

Era como montar um quebra-cabeça de mil peças. As peças estavam todas sobre a mesa, mas justamente a tampa da caixa — aquela que mostra o desenho completo — parecia ter desaparecido. Há editais, pareceres, atas, publicações, recomendações técnicas e todas as etapas previstas no processo. O processo existe. Está documentado. Mas tente fazer uma pergunta simples na mesa da padaria, no Bar América ou na fila do supermercado.

Quem faz a manutenção hoje?

Hoje, o cidadão comum não sabe se a empresa anterior continua trabalhando, se a nova já começou, quem recebe o chamado de um poste apagado ou mesmo se a telegestão já entrou efetivamente em operação em toda a cidade, apenas em parte dela ou, simplesmente, se já entrou em operação. No fim das contas, as perguntas mais simples continuam sendo as mais difíceis de responder.

Talvez o desafio da transparência hoje não seja publicar mais documentos. Seja transformar documentos em informação compreensível. Porque transparência não termina quando uma ata é disponibilizada na internet. Ela só se completa quando qualquer cidadão consegue entender quem faz o quê, em que momento e quando o resultado finalmente chega à rua.


💡 A conversa

Talvez a maior descoberta desta apuração seja perceber que a discussão nunca foi apenas sobre uma licitação. Também não foi sobre um desconto de quase 60%, embora seja natural que uma diferença dessa faça qualquer roda de conversa lembrar o velho ditado da esmola demais.

No fundo, a pergunta continua sendo a mesma que nasceu na Rua Manoel Kill quando aquele vídeo começou a circular.

Se houve investimento, modernização, recomendações do Tribunal de Contas, fiscalização da Câmara Municipal e uma nova licitação para manutenção da iluminação pública, por que a população ainda encontra situações que parecem contar outra história?

Talvez exista uma explicação para cada etapa desse processo. Talvez a transição entre contratos justifique parte dos problemas. Talvez existam respostas técnicas para tudo isso. Mas a população não vive de “talvez”. Quem volta para casa à noite quer enxergar a rua. Quem fecha o comércio quer caminhar até o carro com segurança. Quem sai da igreja quer fazer o caminho de volta com tranquilidade. Quem leva o filho para a aula cedo ou chega tarde do trabalho quer encontrar uma cidade iluminada.

É por isso que iluminação pública nunca foi apenas uma questão de engenharia elétrica. Ela também é uma questão de segurança, mobilidade, qualidade de vida e confiança. E confiança, convenhamos, demora para ser construída, mas bastam três postes apagados para começar a ser questionada.


💡 No fim…

Talvez a maior ironia dessa história seja justamente esta.

Nunca se falou tanto sobre iluminação pública em Marechal Floriano. Nunca houve tantos documentos. Nunca houve tantas reuniões. Nunca houve tantos pareceres. Nunca houve tantas etapas administrativas. E, mesmo assim, bastaram três postes apagados para trazer toda a discussão de volta.

Talvez isso diga mais sobre a importância desse serviço do que qualquer relatório. Porque documento organiza processo. Luminária organiza a cidade.

No fim das contas, ninguém mede a eficiência da iluminação pública pelo número de páginas de um processo administrativo. Mede pelo caminho que faz todas as noites.


📌 Pauta Solta | Para pensar

Toda política pública nasce dentro de um gabinete.

Mas ela só prova que deu certo quando chega à calçada.

Entre uma coisa e outra existem contratos, pareceres, licitações, fiscalizações, decisões técnicas e responsabilidades administrativas. Tudo isso é importante. Mas existe algo igualmente importante: o cidadão conseguir entender quem responde pelo serviço, acompanhar sua execução e perceber o resultado na vida real.

Porque documento ilumina processo.

Quem ilumina a cidade é o resultado.


📦 Box | Ainda falta esclarecer

Depois de analisar documentos oficiais, atas, pareceres e publicações dos órgãos envolvidos, algumas perguntas continuam aguardando respostas mais claras e acessíveis para a população:

  • Em que fase está, hoje, a contratação da nova empresa de manutenção da iluminação pública?
  • Quem responde pelo atendimento enquanto a transição entre contratos não é concluída?
  • Existe um cronograma público para solução dos pontos com iluminação comprometida?
  • A telegestão anunciada já está implantada? Em toda a cidade ou apenas em parte dela?
  • Como foram atendidas, na prática, as recomendações feitas pelo Tribunal de Contas?
  • Quantos chamados de manutenção estão pendentes atualmente e qual é o prazo médio para atendimento?

Sobre o autor

Adelar Dias Junior é jornalista (MTB 2593/ES), fundador e editor da Revista Digital Pauta Solta. Atua na cobertura de temas ligados ao cotidiano, gestão pública, desenvolvimento regional e qualidade de vida, com foco em transformar assuntos complexos em conversas acessíveis, sempre valorizando o interesse público e o olhar do cidadão.

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